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Mercados 24/5 podem transformar a infraestrutura blockchain em um novo gargalo

Mercados contínuos pressionam capacidade blockchain

O avanço dos mercados financeiros para horários cada vez mais longos pode mudar a importância econômica da infraestrutura blockchain. Bart Smith, CEO da Avalanche Treasury Co., acredita que mercados operando 24 horas por dia durante cinco dias da semana, combinados com sistemas autônomos de inteligência artificial, podem elevar de forma significativa a quantidade de transações executadas onchain. Em vez de enxergar esse cenário apenas como expansão do mercado cripto, Smith o relaciona a uma transformação mais ampla da arquitetura usada para negociação, liquidação, gestão de garantias e controle de risco.

Sua previsão para meados de 2027 parte da ideia de que os sistemas financeiros tradicionais terão dificuldade para acompanhar uma rotina quase contínua usando estruturas desenhadas para horários definidos. Se negociação e movimentação de ativos permanecerem ativas durante praticamente toda a semana útil, os processos que ficam por trás de cada operação também precisarão funcionar por períodos muito maiores. É nesse ponto que Smith acredita que a blockchain pode ganhar importância como base de uma nova infraestrutura financeira.

A pressão começa antes mesmo dos agentes de IA

O primeiro elemento da tese é a ampliação dos horários de negociação. Hoje, grande parte dos mercados tradicionais ainda depende de sessões e janelas operacionais específicas. Mesmo quando existem mecanismos de negociação estendida, muitas etapas de compensação, liquidação e gestão de risco continuam organizadas de acordo com horários predefinidos.

Smith prevê que esse modelo caminhe para 24 horas por dia, cinco dias por semana até meados de 2027. Para ele, essa mudança exigirá sistemas que permaneçam funcionais durante toda a nova janela de negociação. Não basta manter uma tela de mercado aberta por mais tempo. A infraestrutura responsável por registrar, transferir, liquidar e controlar posições também precisa funcionar de forma compatível.

Blockchain aparece como alternativa ao modelo antigo

Smith afirmou que uma nova infraestrutura precisará ser criada e que ela não deverá seguir simplesmente o formato anterior. Em sua visão, a blockchain pode servir como base para sistemas capazes de operar sem as mesmas limitações de horário associadas às estruturas financeiras tradicionais.

Essa mudança colocaria as redes Layer 1 mais perto do centro das operações financeiras. Em vez de servirem apenas para transferências de criptoativos ou aplicações descentralizadas específicas, elas poderiam participar de atividades de liquidação, movimentação de colateral e registro de ativos durante praticamente toda a semana.

O ponto central é que a expansão dos horários torna disponibilidade contínua uma exigência operacional, e não apenas uma conveniência.

A inteligência artificial amplificaria o volume de atividade

Depois vem o segundo fator: os agentes de IA. Esses sistemas conseguem receber instruções, interagir com softwares e realizar tarefas com participação humana limitada. No mercado financeiro, isso pode significar executar ordens, transferir fundos, liquidar pagamentos ou ajustar posições automaticamente.

A diferença em relação a um investidor humano está na frequência e na continuidade. Um trader pode operar durante determinado período e depois parar. Um agente de IA pode continuar ativo enquanto as condições estabelecidas permanecem válidas. Ele não precisa dormir, esperar o início do expediente ou buscar aprovação manual para cada etapa caso tenha sido configurado para atuar de forma autônoma.

Se essas operações forem processadas em blockchain, cada decisão adicional consome capacidade da rede.

Smith questiona a ideia de block space abundante

Hoje, muitos usuários não precisam pensar detalhadamente sobre capacidade porque as principais redes conseguem atender à maior parte da atividade normal. Smith acredita que essa percepção pode mudar caso agentes automatizados gerem um fluxo muito maior de operações.

Segundo ele, se a adoção de agentes IA alcançar até mesmo a parte mais baixa das expectativas atuais do mercado, atividades relevantes começarão a ocorrer onchain em volume suficiente para tornar o block space mais disputado. Sua afirmação de que o espaço em bloco deixa de ser “infinito” resume essa preocupação.

Smith não apresentou uma estimativa quantitativa para o número de transações nem estabeleceu um momento exato para o surgimento de restrições. A tese depende da adoção efetiva dos agentes em aplicações financeiras.

A disputa pode colocar Avalanche, Solana e Ethereum sob comparação direta

Com maior pressão sobre capacidade, pequenas diferenças técnicas entre redes podem deixar de parecer secundárias. Smith mencionou Avalanche, Solana e Ethereum ao discutir esse cenário, destacando que cada Layer 1 possui características próprias em velocidade, taxas, finalização, privacidade e estrutura.

Quando existe capacidade suficiente, muitos usuários conseguem ignorar parte dessas diferenças. Se a demanda crescer, o custo de escolher uma rede menos adequada para determinada operação pode aumentar. Para instituições, isso pode significar atrasos, taxas maiores ou limitações na maneira como os sistemas são configurados.

Smith acredita que a escassez relativa de block space tornaria esses critérios muito mais relevantes para empresas que operam em grande escala.

Privacidade pode ganhar peso em ambientes corporativos

Entre os diferenciais que Smith associa à Avalanche estão privacidade e segurança. A rede permite a criação de ambientes Layer 1 separados e configuráveis, o que pode atender empresas que precisam controlar como dados e operações são tratados.

Esse tipo de estrutura pode ser importante quando a blockchain é usada para atividades que envolvem informações pessoais, documentos oficiais ou ativos regulados. Nem toda aplicação empresarial pode colocar todos os dados diretamente em uma rede pública.

A possibilidade de utilizar mecanismos criptográficos para verificação sem necessariamente expor o conteúdo completo é um exemplo de como essas necessidades podem ser atendidas.

O Digital Vault dos Emirados mostra essa aplicação

Um caso recente é o UAEPASS Digital Vault. Em 14 de setembro, Avalanche foi selecionada como blockchain de base para esse serviço de documentos ligado à plataforma nacional de identidade digital dos Emirados Árabes Unidos.

O UAEPASS atende 12,5 milhões de usuários e conecta essas pessoas a mais de 15 mil serviços oferecidos por mais de 350 organizações públicas e privadas. O Digital Vault deve utilizar registros criptográficos para verificar se os documentos foram alterados, sem armazenar diretamente na blockchain o conteúdo pessoal presente nos arquivos.

A estrutura separa a prova de integridade do dado sensível. A autoridade de telecomunicações e governo digital dos Emirados supervisiona o serviço, enquanto Deca4 cuida da implementação local e Ava Labs fornece a infraestrutura Avalanche e o suporte técnico.

Tokenização de títulos cria outro tipo de demanda

A presença de Avalanche também está crescendo em projetos ligados a mercados de capitais. Em setembro, a Hanwha Investment & Securities concluiu uma plataforma de títulos tokenizados compatível com Avalanche antes do lançamento planejado do mercado regulado de security tokens na Coreia do Sul.

A plataforma foi desenvolvida para administrar emissão e distribuição de títulos tokenizados. O novo marco sul-coreano está previsto para entrar em vigor em fevereiro de 2027, oferecendo às instituições uma rota regulada para representar determinados valores mobiliários em sistemas blockchain.

Esse tipo de aplicação se aproxima mais da infraestrutura financeira tradicional e ajuda a explicar por que Smith conecta Layer 1 a mercados com horários mais extensos.

A demanda institucional já vai além de projetos experimentais

Avalanche também acumulou volume relevante em ativos do mundo real tokenizados. Em julho, o valor distribuído desses ativos na rede chegou a US$ 2,1 bilhões após uma alta de 60,47% em trinta dias.

Bridgetower afirmou ter colocado mais de US$ 11 bilhões em ativos ligados à produção na Avalanche utilizando infraestrutura da Chainlink. Entre eles estava o projeto Arizona Copper-Gold. No mesmo período, o fundo BUIDL da BlackRock, baseado em títulos do Tesouro americano tokenizados, havia ultrapassado US$ 900 milhões na rede.

Franklin Templeton e VanEck também utilizaram ou anunciaram planos relacionados a produtos baseados na Avalanche.

O cenário de Smith exige algo além da tokenização atual

Esses números mostram atividade institucional, mas ainda são diferentes do futuro imaginado por Smith. A tokenização de um ativo pode gerar uso relevante sem produzir necessariamente um fluxo constante de transações.

O cenário de maior pressão aparece quando esses ativos passam a fazer parte de mercados que operam quase continuamente e são gerenciados por sistemas automáticos. Nesse caso, agentes podem responder a preços, margens, risco ou necessidades de liquidação a qualquer momento.

Assim, a expansão da tokenização funciona como uma base sobre a qual a automação pode aumentar ainda mais o volume futuro.

Máquinas não seguem o ritmo dos participantes humanos

Essa diferença de comportamento é fundamental para entender a preocupação com capacidade. A atividade humana é naturalmente limitada por disponibilidade, horários de trabalho e necessidade de decisão manual. Sistemas autônomos podem funcionar durante toda a janela em que o mercado estiver aberto.

Se um agente identifica uma condição e executa uma operação, pode verificar a situação novamente segundos ou minutos depois e agir outra vez. Em escala, milhares de sistemas desse tipo poderiam produzir uma quantidade de interações muito superior à de uma base equivalente de usuários humanos.

O resultado seria uma carga mais constante e potencialmente muito mais elevada sobre as redes.

Finalidade e custos podem deixar de ser detalhes técnicos

Em um ambiente de alta frequência de operações, características como finalização de transações e taxas ganham importância econômica direta. Uma empresa que precisa movimentar colateral ou concluir uma operação antes de iniciar outra pode depender da rapidez com que a transação anterior se torna definitiva.

Custos também podem se acumular quando agentes realizam muitas operações. Uma diferença aparentemente pequena por transação pode se tornar relevante quando multiplicada por um grande volume de atividade automatizada.

Por isso, Smith acredita que características hoje vistas como diferenças sutis entre Layer 1 podem se tornar fatores decisivos.

Avalanche Treasury adiciona uma exposição financeira ao ecossistema

Além de defender essa visão para o futuro da infraestrutura, Smith lidera a Avalanche Treasury Co., empresa listada nos Estados Unidos que começou a negociar no Nasdaq sob o ticker AVAT em junho.

A estrutura oferece aos investidores americanos uma forma de exposição ao ecossistema Avalanche sem a necessidade de comprar AVAX diretamente. A empresa chegou ao mercado por meio de uma fusão com a Mountain Lake Acquisition Corp., uma SPAC, em uma transação avaliada em aproximadamente US$ 675 milhões.

Na estreia, a Avalanche Treasury possuía cerca de 15 milhões de AVAX, equivalentes a aproximadamente 3,5% da oferta circulante naquele momento.

A estreia das ações mostrou forte volatilidade

O primeiro pregão de AVAT foi difícil. As ações abriram a US$ 2,99 e encerraram a sessão a US$ 1,85, representando queda de 38,13%. O volume negociado ficou em aproximadamente 497.580 ações e o valor de mercado da empresa estava próximo de US$ 486,37 milhões.

A queda mostrou que a exposição pública ao ecossistema Avalanche também pode enfrentar volatilidade significativa. O desempenho da ação, porém, não altera a estratégia declarada por Smith para a empresa.

Ele afirmou que a Avalanche Treasury pretende investir capital em diferentes partes da rede, em vez de atuar apenas como uma entidade que acumula tokens de forma passiva.

A empresa tenta se posicionar como veículo de ecossistema

Smith descreveu o negócio como um veículo de investimento no ecossistema e afirmou que a estratégia não deveria ser interpretada simplesmente como uma aposta no preço do AVAX. A ideia é utilizar capital em oportunidades relacionadas à própria rede.

Mesmo assim, a empresa permanece exposta aos movimentos do token porque mantém uma posição relevante em AVAX. Uma queda ou alta expressiva no ativo pode influenciar o valor de suas participações.

O conselho e grupo consultivo incluem Emin Gün Sirer, fundador da Ava Labs, e Stani Kulechov, fundador da Aave. Entre os apoiadores estão Dragonfly, ParaFi Capital, VanEck, Galaxy Digital, Pantera Capital, CoinFund, Kraken, FalconX e Borderless.

A experiência de Smith ajuda a explicar seu foco em infraestrutura

Antes de assumir a Avalanche Treasury, Smith passou quase quatorze anos na Susquehanna e ocupou funções relacionadas a trading institucional e ativos digitais. Esse histórico ajuda a explicar por que sua análise começa menos pelo preço dos tokens e mais pela estrutura operacional dos mercados.

Sua tese combina a evolução de sistemas financeiros tradicionais com novas tecnologias. Mercados mais longos exigem infraestrutura mais disponível. Tokenização coloca mais ativos em blockchain. Agentes de IA aumentam a frequência de interação com esses ativos.

Juntas, essas três tendências podem produzir um ambiente muito diferente do atual.

A capacidade pode se tornar parte da competição entre redes

Se o cenário se confirmar, Layer 1 não competirão apenas por desenvolvedores, usuários ou quantidade de aplicações. Elas também poderão competir pela capacidade de sustentar um volume crescente de operações automáticas sem comprometer desempenho, custos ou segurança.

A arquitetura de cada rede passaria a ter consequências mais visíveis. Empresas podem precisar escolher ambientes capazes de equilibrar velocidade, privacidade, finalidade e requisitos regulatórios.

Isso explica por que Smith acredita que diferenças hoje tratadas como técnicas podem ganhar peso comercial.

A previsão ainda depende de adoção real

Apesar da lógica apresentada, a escassez de block space não é uma realidade comprovada nesse cenário futuro. Smith não apresentou números mostrando quando ou quanto da capacidade disponível seria consumida pelos agentes de IA.

A hipótese depende de duas mudanças que ainda precisam acontecer em escala: adoção ampla de agentes financeiros autônomos e migração crescente de atividades de mercado para blockchain.

Os projetos institucionais já existentes demonstram avanço no uso da tecnologia, mas não comprovam que o volume de transações chegará ao nível previsto.

O verdadeiro teste pode vir quando os mercados nunca pararem

A discussão levantada por Smith é menos sobre o estado atual das blockchains e mais sobre como elas responderiam a uma transformação estrutural da atividade financeira. Mercados funcionando 24 horas por dia durante cinco dias, ativos tokenizados e agentes capazes de executar operações sem interrupção criariam uma dinâmica inédita de demanda.

Nesse ambiente, capacidade deixaria de ser apenas uma especificação técnica. Ela poderia se tornar um componente estratégico para bancos, gestoras, empresas e plataformas financeiras.

Avalanche já tenta construir uma posição nesse processo com ativos tokenizados, infraestrutura configurável e projetos institucionais. Ainda não existe evidência de que os agentes de IA estejam próximos de esgotar a capacidade dos Layer 1, mas Smith alerta que a combinação entre automação e mercados quase contínuos pode tornar esse problema muito mais relevante do que parece hoje.

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