A estratégia da Coinbase para ações tokenizadas parte de uma escolha estrutural: os tokens devem ser respaldados por títulos reais mantidos em custódia, e não apenas reproduzir os preços de empresas americanas por meio de instrumentos sintéticos. Brian Armstrong, CEO da exchange, apresentou esse modelo como uma forma de aproximar investidores internacionais de um mercado acionário dos Estados Unidos avaliado em mais de US$ 70 trilhões.
A companhia já oferece tokens vinculados a grandes empresas e ETFs através da Base, mas a ambição vai além da negociação onchain. Coinbase quer combinar ações mantidas em custódia, possibilidade de resgate, tratamento de dividendos e futuros mecanismos de voto. Ao mesmo tempo, a estrutura mostra como transformar uma ação em um ativo blockchain envolve uma série de intermediários jurídicos e regulatórios que diferenciam o token da propriedade tradicional em uma corretora.
O processo começa antes de o token chegar à Base
Os produtos não são simplesmente emitidos a partir de um preço de referência. Segundo os materiais de lançamento, participantes autorizados primeiro compram as ações correspondentes no mercado. Esses títulos são depois enviados para uma conta segregada de custódia.
A Coinbase Onchain SPV Ltd., constituída no Abu Dhabi Global Market, é a entidade que formalmente emite os tokens. Alpaca Securities atua como corretora e custodiante das ações americanas utilizadas como lastro.
A Alpaca é registrada na Securities and Exchange Commission como broker-dealer e integra a Financial Industry Regulatory Authority e a Securities Investor Protection Corporation.
Mesmo assim, ela não abre uma conta de corretagem individual para cada pessoa que mantém um token da Coinbase. As ações ficam em nome da estrutura offshore responsável pela emissão.
Base recebeu primeiro Apple, Nvidia, Meta e Alphabet
Os primeiros tokens nativos da Base chegaram em 24 de agosto e foram disponibilizados a investidores elegíveis fora dos Estados Unidos.
Apple, Nvidia, Meta e Alphabet foram representadas pelos tickers AAPLc, NVDAc, METAc e GOOGLc. Os produtos utilizam o padrão B20 da Base.
Esse padrão permite que o emissor incorpore controles de identidade, restrições de transferência e outras exigências de conformidade a operações realizadas entre carteiras e aplicações descentralizadas.
A combinação procura preservar características típicas de ativos blockchain, como transferência onchain, enquanto mantém mecanismos capazes de impor condições definidas pelo emissor.
Ter NVDAc não coloca o investidor no registro da Nvidia
O prospecto do token ligado à Nvidia mostra por que é importante separar lastro real de propriedade acionária direta.
Cada token é descrito como uma participação beneficiária proporcional em um conjunto de ativos depositados. As ações reais existem e estão custodiadas, mas seu título legal permanece geralmente com o trust responsável pela estrutura.
Por isso, uma pessoa que mantém NVDAc em uma carteira não passa automaticamente a constar no registro oficial de acionistas da Nvidia.
Sua relação jurídica é estabelecida através do token e da entidade emissora. Essa característica é diferente de comprar ações diretamente em uma conta convencional e ser reconhecido dentro da cadeia tradicional de propriedade do título.
O patrimônio depositado busca permanecer separado do emissor
A Coinbase também estruturou os ativos para que as ações custodiadas sejam mantidas em trust em benefício dos detentores elegíveis.
Conforme o prospecto, se a estrutura for considerada válida sob a legislação do Abu Dhabi Global Market, os ativos depositados deverão permanecer separados dos bens próprios da Coinbase Onchain SPV em uma situação de falência ou insolvência.
Essa separação procura proteger a relação entre os tokens e o patrimônio usado como lastro.
Ela não muda, porém, o fato de que o usuário depende de uma estrutura jurídica intermediária para exercer seus direitos.
Resgatar a ação exige ser um holder reconhecido
Uma das características enfatizadas por Armstrong é a possibilidade de trocar tokens elegíveis pelos títulos subjacentes. Na prática, essa função depende da situação regulatória do detentor.
Coinbase chama de “vested holders” os usuários que concluíram as verificações exigidas e foram reconhecidos pelo emissor. Esses clientes podem solicitar resgate em ações, dólares americanos ou criptomoedas suportadas, como USDC.
A taxa de resgate informada é de 0,05%.
O pedido, contudo, pode passar por controles de identidade, localização, sanções e prevenção à lavagem de dinheiro realizados pela Coinbase, Alpaca ou outros prestadores envolvidos.
O valor final pode mudar durante o resgate
Solicitar o resgate não fixa necessariamente o valor mostrado na interface naquele momento.
O processo pode depender de verificações de compliance, liquidação de mercado e eventual venda das ações utilizadas como lastro. Durante esse intervalo, o preço do ativo pode mudar.
Consequentemente, o montante efetivamente recebido pode ser diferente daquele observado quando a solicitação foi enviada.
Isso mostra que a conversão entre token, ação e dinheiro depende tanto da infraestrutura blockchain quanto dos mecanismos tradicionais de liquidação do mercado acionário.
Comprar em uma DEX não garante direito ao resgate
A arquitetura da Coinbase cria uma situação particular para quem adquire os tokens em exchanges descentralizadas.
É possível receber determinados tokens sem completar previamente todo o processo de verificação do emissor. Esses usuários são classificados como “unvested holders”.
Eles podem negociar ou transferir o ativo em mercados permitidos, mas não têm seus direitos de resgate ou voto reconhecidos enquanto não cumprirem as condições exigidas.
Uma carteira pode, portanto, possuir economicamente o token e movimentá-lo onchain sem poder exigir imediatamente a entrega da ação real.
Esse detalhe mostra que a livre circulação tecnológica do token não elimina as regras aplicadas aos direitos vinculados ao produto.
Dividendos aumentam o lastro em vez de chegar diretamente em dinheiro
O tratamento dos dividendos também foi adaptado à estrutura tokenizada.
Quando a empresa subjacente distribui dividendos em dinheiro, o emissor normalmente não transfere esses valores diretamente para a carteira do usuário. Em vez disso, o montante líquido é usado para comprar mais ações.
Depois da compra, o chamado deposit ratio é ajustado. Assim, cada token passa a representar uma quantidade maior do ativo depositado.
O mecanismo preserva o valor econômico do dividendo dentro da própria posição tokenizada, mas há deduções.
No caso do prospecto da Nvidia, distribuições destinadas a investidores não americanos normalmente sofrem retenção tributária de 30% nos Estados Unidos, salvo quando um tratado fiscal aplicável reduz essa taxa.
Coinbase também cobra parte das distribuições
Além dos impostos, o emissor cobra uma taxa equivalente a 5% do valor bruto de dividendos e outras distribuições.
Como consequência, nem todo o valor recebido da empresa subjacente é usado para ampliar o lastro do token.
Eventos corporativos, despesas e impostos também podem alterar o deposit ratio ao longo do tempo.
Isso significa que a relação entre um token e uma ação pode não permanecer exatamente em um para um depois da emissão inicial.
Para entender a quantidade efetiva de ações representada, o investidor precisa acompanhar as regras e os ajustes descritos pelo emissor.
Voto será mais parecido com instrução do que com participação direta
Armstrong disse que a Coinbase pretende incorporar direitos de voto. Os documentos já preveem que holders verificados possam enviar instruções ao emissor.
A entidade responsável pode então tentar exercer o voto sobre as ações custodiadas em nome desses investidores.
Esse modelo continua sendo intermediado. O detentor não necessariamente recebe uma procuração diretamente da companhia americana nem interage com ela como um acionista convencional registrado.
A execução pode depender da legislação aplicável, de prazos operacionais e de outras limitações práticas. Alguns direitos podem também não estar disponíveis em determinadas jurisdições.
Galaxy Research vê diferença entre marketing e estrutura jurídica
A descrição de Coinbase sobre “uma ação real que você realmente possui” foi questionada pela Galaxy Research.
Segundo a análise da Galaxy, o próprio material da Coinbase também chama o produto de reivindicação direta sobre uma ação. A diferença importa porque existe um wrapper de terceiros entre o detentor do token e a empresa americana.
A relação jurídica passa pela Coinbase Onchain SPV, e não diretamente por Apple, Nvidia, Meta ou Alphabet.
Galaxy afirmou não ter encontrado indícios de que essas empresas tenham patrocinado os tokens.
Em uma estrutura de terceiros, dividendos, votos e resgates são transmitidos de acordo com os documentos e procedimentos definidos pela companhia de tokenização.
A expansão comercial já vai além das quatro primeiras empresas
Depois do grupo inicial, Coinbase acrescentou tokens ligados a Amazon, Microsoft, Strategy, SanDisk, Tesla e SpaceX, que permanece uma empresa privada.
O crescimento ocorre paralelamente a uma atividade cada vez maior nas exchanges descentralizadas da Base.
Em 13 de setembro, o volume diário de negociação de ações tokenizadas em DEXs da rede atingiu um recorde de US$ 100 milhões.
Dados da Token Terminal mostraram US$ 730,9 milhões negociados nessa categoria ao longo dos 30 dias anteriores.
Aerodrome respondeu por US$ 557,1 milhões, equivalentes a 76% do total medido. Uniswap v4 processou mais US$ 139,3 milhões.
O público americano não participa dessa estrutura
Embora todos os primeiros tokens estejam ligados a empresas dos Estados Unidos, Coinbase não os oferece a pessoas americanas.
Os prospectos informam que os títulos não foram registrados sob o Securities Act de 1933 nem perante reguladores estaduais americanos.
A distribuição acontece offshore através da Regulation S, isenção aplicável a determinadas transações de valores mobiliários realizadas fora do país.
As regras proíbem oferta, venda ou entrega dentro dos Estados Unidos ou para conta ou benefício de uma pessoa americana.
Assim, investidores estrangeiros elegíveis podem acessar representações onchain de ações americanas que não estão disponíveis aos próprios clientes americanos da Coinbase.
Clientes dos EUA usam uma operação separada
Para residentes americanos, a Coinbase oferece ações e ETFs convencionais através da Coinbase Capital Markets, uma corretora separada e integrante da FINRA.
A companhia afirma que essa plataforma oferece negociação 24 horas por dia durante cinco dias da semana e utiliza Apex Clearing para execução, custódia e compensação.
A separação entre essas duas estruturas evidencia o papel da regulação na estratégia.
Coinbase mantém os tokens offshore enquanto oferece o produto acionário tradicional aos usuários domésticos através de uma entidade de corretagem registrada.
A SEC mantém a mesma lógica para ativos tokenizados
A SEC já afirmou que colocar um valor mobiliário em uma blockchain não elimina sua sujeição às leis federais de securities.
A agência diferencia ativos tokenizados patrocinados diretamente pelo emissor daqueles criados por terceiros independentes.
Dependendo da estrutura, o produto pode oferecer propriedade beneficiária, um entitlement sobre valores mobiliários ou apenas exposição econômica.
Essa classificação não depende apenas da tecnologia utilizada.
No caso da Coinbase, a empresa procura fortalecer sua posição ao manter ações reais por trás dos tokens, mas os direitos continuam definidos pela estrutura jurídica e pelos documentos de emissão.
Lastro real não significa equivalência perfeita
O argumento central de Armstrong é que o futuro das ações tokenizadas deveria evitar produtos puramente sintéticos e manter ativos reais em custódia. O modelo da Coinbase segue essa linha ao comprar as ações correspondentes, segregá-las e criar mecanismos de resgate e benefícios econômicos.
Ainda assim, o produto não é idêntico à posse direta de uma ação em uma corretora. O holder não aparece automaticamente no registro corporativo, depende de verificação para resgatar, recebe dividendos principalmente por meio de reinvestimento e exerce eventual voto através de uma entidade intermediária.
Essa diferença não elimina o lastro; ela define a natureza do token.
A proposta da Coinbase é transformar ações reais em uma infraestrutura capaz de circular onchain, ser negociada em DEXs e alcançar investidores internacionais, mantendo uma conexão verificável com o ativo subjacente. O crescimento do volume na Base mostra que existe atividade nesse mercado. O próximo desafio será demonstrar se essa combinação de custódia tradicional, regras de compliance e transferências blockchain consegue estabelecer um modelo duradouro para levar uma parcela maior do mercado acionário americano para estruturas tokenizadas.

