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Gerador Bitcoin usa decaimento radioativo, mas validação de segurança ainda está pendente

Gerador Bitcoin Entropy32 Plus com contador Geiger

Um projeto aberto de hardware propõe uma abordagem incomum para criar frases de recuperação de carteiras Bitcoin: utilizar o tempo imprevisível entre eventos de decaimento radioativo como matéria-prima para a geração de entropia.

Chamado Entropy32 Plus e também conhecido como “The Universe Bifurcator”, o dispositivo foi publicado pelo desenvolvedor Alexander Higgins em setembro de 2026. O projeto recebe pulsos de um contador Geiger, mede os intervalos entre as detecções, transforma comparações desses intervalos em bits e processa um conjunto de 512 bits com SHA-256.

Depois, parte do resultado é convertida em uma frase BIP39 de 12 ou 24 palavras.

O método chama atenção por funcionar sem Wi-Fi, Bluetooth ou armazenamento persistente da seed. Entretanto, a característica mais importante do projeto talvez seja a própria cautela adotada por seu desenvolvedor.

Higgins descreve o Entropy32 Plus como experimental e educacional e recomenda que ele não seja usado para proteger valores significativos antes de uma avaliação independente.

O motivo está no componente mais difícil de comprovar: embora o equipamento produza frases BIP39 válidas, a quantidade real de entropia presente nos dados originados pelo contador Geiger ainda não foi formalmente validada.

Uma frase BIP39 correta não resolve toda a questão de segurança

O funcionamento do Entropy32 Plus destaca uma distinção fundamental para a geração de carteiras.

É possível criar uma sequência perfeitamente compatível com o padrão BIP39 sem, necessariamente, demonstrar que a informação original era imprevisível o suficiente.

O dispositivo utiliza uma lista padronizada de 2.048 palavras e executa corretamente o processo de transformação dos dados condicionados em uma frase mnemônica.

No modo de 12 palavras, são utilizados 128 bits do resultado processado, acompanhados por um checksum de quatro bits. Os 132 bits resultantes são divididos em doze grupos de 11 bits, e cada grupo seleciona uma palavra da lista BIP39.

No modo de 24 palavras, são utilizados 256 bits e um checksum de oito bits. Os 264 bits finais formam 24 índices de 11 bits.

O formato, portanto, pode estar correto mesmo que a qualidade da fonte inicial ainda precise ser estabelecida.

Esse ponto é especialmente relevante porque uma frase de recuperação não é simplesmente uma lista de palavras escolhidas de forma independente. Carteiras modernas podem derivar várias chaves privadas a partir de uma única seed principal.

Se a entropia dessa seed for fraca, o problema pode atingir todos os endereços derivados dela.

A segurança começa antes do SHA-256

No Entropy32 Plus, o processo começa no contador Geiger.

O projeto atualmente aceita pulsos de um modelo GQ Electronics GMC-320S por meio de uma conexão de 3,5 milímetros. Segundo a documentação, o contador pode registrar emissões provenientes de uma fonte radioativa ou da própria radiação de fundo.

O princípio utilizado é que o instante exato de um evento individual de decaimento radioativo não pode ser previsto.

Um comparador LM393 recebe o sinal analógico produzido pelo contador e o converte em uma entrada digital. O sinal segue para um microcontrolador ATmega328P instalado na placa personalizada do projeto.

O firmware registra cada evento aceito utilizando um temporizador com resolução de microssegundos.

A informação relevante não é simplesmente a hora em que o pulso ocorreu, mas a relação entre intervalos sucessivos.

Comparações entre intervalos produzem zeros e uns

A lógica implementada pelo firmware compara o intervalo mais recente com aquele registrado imediatamente antes.

Se o novo intervalo for maior, o sistema gera um bit um. Quando o novo intervalo é menor, gera um zero.

Intervalos iguais são descartados.

Também são rejeitadas medições abaixo de 200 microssegundos, tratadas pelo projeto como possíveis falhas ou glitches.

O dispositivo continua fazendo essas comparações até acumular 512 bits.

A escolha de coletar 512 bits cria um conjunto de entrada maior do que os 256 bits máximos posteriormente usados para uma frase BIP39 de 24 palavras.

Porém, o próprio desenvolvedor não afirma que cada comparação represente um bit completo de entropia mensurada.

Esse detalhe é essencial.

Uma sequência possuir 512 bits de dados não significa automaticamente possuir 512 bits de imprevisibilidade.

O SHA-256 condiciona os dados, mas não mede sua entropia

Depois que o conjunto de 512 bits está completo, o firmware processa os 64 bytes por meio de sua implementação local do SHA-256.

Para gerar 12 palavras, o equipamento utiliza os primeiros 16 bytes do hash. Para 24 palavras, utiliza todos os 32 bytes.

O hashing serve como uma etapa de condicionamento.

Segundo a descrição do projeto, o procedimento procura reduzir padrões visíveis relacionados a características como tempo morto do detector, mudanças na taxa de contagem ou possíveis correlações entre medições.

O SHA-256 pode distribuir a entropia existente pelo resultado final.

O que ele não faz é provar quanta entropia estava presente na entrada.

Se a fonte física produzir menos imprevisibilidade do que o esperado, um hash de 256 bits não transforma automaticamente essa entrada em 256 bits comprovados de entropia.

Por isso, a segurança do projeto não pode ser avaliada apenas observando o tamanho do hash final.

Um teste verifica o SHA-256, não a fonte radioativa

O firmware executa um teste do SHA-256 durante a inicialização.

Ele calcula o hash de “abc” e compara o resultado com um valor conhecido. Caso a resposta esteja incorreta, o equipamento interrompe o processo antes de iniciar a coleta de entropia.

Essa verificação confirma que a implementação retorna o valor esperado para aquele vetor de teste.

Ainda assim, ela não avalia o contador Geiger, não demonstra independência entre os pulsos e não mede a entropia mínima contida nos dados coletados.

O teste verifica uma parte específica do sistema.

A principal questão de segurança permanece na qualidade e na independência dos eventos usados antes da etapa de hashing.

O projeto aposta em isolamento físico

Outro elemento importante do Entropy32 Plus é a decisão de manter a geração da frase longe de aparelhos conectados.

Os arquivos públicos do projeto não incluem hardware de comunicação sem fio.

Não há Wi-Fi ou Bluetooth na arquitetura descrita.

A interação ocorre por meio de dois botões, e a frase é apresentada em uma tela OLED de 0,91 polegada.

Os índices correspondentes às palavras ficam temporariamente armazenados na RAM do microcontrolador.

Depois que o usuário registra a frase, pressionar os dois botões inicia um processo de confirmação que sobrescreve o conjunto de palavras e reinicia a coleta de entropia.

O firmware também apaga o conjunto original após copiá-lo para processamento. Buffers temporários utilizados para hash, checksum e entropia são sobrescritos depois da criação dos índices BIP39.

Segundo Higgins, a frase de recuperação não é armazenada de forma persistente.

Ausência de conexão não elimina todos os riscos

Manter o dispositivo offline remove diferentes caminhos de ataque associados a sistemas conectados, mas isso não demonstra que uma unidade física específica é confiável.

A arquitetura aberta não possui um secure element nem um mecanismo que comprove que o firmware instalado corresponde exatamente ao código disponibilizado publicamente.

Isso significa que ainda existe uma questão de confiança no hardware montado.

Uma unidade alterada poderia, em princípio, apresentar palavras previamente determinadas ou guardar informações geradas sem demonstrar externamente que foi modificada.

Da mesma forma, um projeto aberto permite examinar código e arquivos de fabricação, mas não garante que cada equipamento físico tenha sido construído corretamente.

O repositório inclui firmware, projeto das placas, arquivos de fabricação, gabinete imprimível e a lista de palavras BIP39.

A transparência facilita inspeção, mas não substitui a verificação independente do dispositivo final.

O microcontrolador opera próximo ao limite de memória

O projeto também mostra como diferentes componentes foram condensados em um hardware relativamente limitado.

A lista completa de 2.048 palavras BIP39 em inglês ocupa 13.117 bytes, aproximadamente 43% da memória flash do microcontrolador.

Ao adicionar a interface OLED, a implementação de SHA-256 e toda a lógica responsável pela coleta de eventos, o programa compilado passa a utilizar 30.006 dos 30.720 bytes disponíveis.

Restam apenas 714 bytes sem uso.

Esses números mostram que praticamente toda a capacidade de armazenamento de programa do ATmega328P está ocupada pelas funções necessárias para coletar, processar e exibir a seed.

Falta o teste que pode quantificar a fonte de entropia

O principal trabalho pendente está documentado pelo próprio projeto.

A fonte baseada no contador Geiger ainda não foi avaliada conforme a NIST Special Publication 800-90B.

Essa metodologia é voltada para a análise de fontes físicas de entropia e inclui procedimentos para dados independentes e não independentes.

Higgins propõe registrar durante um período prolongado os tempos brutos entre chegadas de pulsos e examiná-los com estimadores de entropia mínima não-IID do NIST.

Os comentários do firmware também alertam que testes estatísticos gerais, isoladamente, não seriam suficientes para estabelecer que existe entropia adequada.

Até 13 de setembro, não havia auditoria externa, avaliação NIST ou conjunto público de dados brutos dos eventos incluído no repositório.

O desenvolvedor deixa claro que quem utiliza a fonte sem verificá-la assume o risco correspondente.

Para valores importantes, o próprio criador recomenda outra fonte

A recomendação mais conservadora do projeto é significativa.

Antes de criar uma carteira destinada a proteger fundos valiosos, Higgins sugere combinar os dados derivados do contador Geiger com outra fonte de entropia que já tenha sido validada de forma independente.

Essa orientação mostra que o Entropy32 Plus não está sendo apresentado como uma solução cuja segurança já foi comprovada.

Ele demonstra uma forma de coletar aleatoriedade física e integrá-la ao processo BIP39, mas mantém aberta a questão da qualidade quantitativa dessa aleatoriedade.

A diferença é fundamental.

Produzir dados aparentemente aleatórios é uma coisa. Demonstrar um limite mínimo confiável de entropia é outra.

Falhas de entropia podem sobreviver a uma atualização

O risco não termina quando um problema de firmware é descoberto e corrigido.

Casos anteriores envolvendo geração previsível de seeds demonstram por que carteiras criadas antes de uma correção podem continuar comprometidas.

Uma atualização não altera automaticamente frases de recuperação já geradas.

Se uma seed foi produzida com entropia fraca, seria necessário criar uma nova carteira e transferir os ativos.

Além disso, um atacante capaz de reproduzir possíveis seeds não precisa necessariamente identificar previamente os usuários de um dispositivo vulnerável.

Ele pode derivar endereços públicos das combinações possíveis e procurar correspondências no blockchain.

Por isso, a validação da fonte original é tão importante quanto o correto funcionamento das etapas seguintes.

Entropy32 Plus continua sendo um experimento em desenvolvimento

O histórico do repositório mostra um primeiro commit em 4 de setembro, seguido por alterações no firmware, na placa de circuito e no gabinete.

Até 13 de setembro, o projeto não possuía uma versão de produção marcada nem um cronograma publicado para uma avaliação independente de segurança.

Seu funcionamento, porém, apresenta uma proposta técnica clara.

Eventos físicos detectados por um contador Geiger são medidos. Intervalos consecutivos são comparados. O sistema reúne 512 bits, condiciona o conjunto com SHA-256 e transforma parte do resultado em uma frase BIP39 padronizada.

Todo o processo ocorre localmente, sem redes sem fio e sem armazenamento persistente da frase segundo o projeto.

A arquitetura reduz algumas superfícies de exposição e oferece arquivos abertos para inspeção.

Mas a própria documentação evita confundir essas características com uma garantia de segurança.

Enquanto a fonte radioativa não passar por medição formal e revisão independente, permanece desconhecida a quantidade mínima de entropia realmente fornecida pelas comparações.

Essa é a questão que separa um mecanismo tecnicamente interessante de geração de seeds de uma solução comprovada para proteger patrimônio em Bitcoin.

Por enquanto, o Entropy32 Plus permanece exatamente no papel definido por seu desenvolvedor: um projeto experimental e educacional que mostra como eventos de decaimento radioativo podem participar da criação de frases Bitcoin, ao mesmo tempo em que deixa explícito que o elemento mais importante para a segurança — a validação independente da entropia — ainda precisa ser concluído.

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