O crescimento do USDT em países como Venezuela, Argentina e Bolívia mostra que stablecoins em dólar estão deixando de ser apenas instrumentos de negociação em exchanges e passando a ocupar funções mais práticas no cotidiano financeiro.
Paolo Ardoino, CEO da Tether, afirmou em 23 de agosto que economias em desenvolvimento estão usando cada vez mais USDT no comércio interno, em operações internacionais e como forma de poupança denominada em dólar.
Ele também citou a Turquia, mas os dados disponíveis para a América Latina oferecem uma leitura particularmente clara sobre como esse processo está acontecendo.
O cenário regional combina inflação, desvalorização de moedas locais, dificuldades para obter dólares físicos e restrições em sistemas bancários tradicionais.
O USDT resolve um problema de acesso
A principal função da stablecoin é simples.
Ela busca acompanhar o valor do dólar americano.
Isso permite que uma pessoa tenha exposição digital à moeda americana sem precisar manter uma conta bancária nos Estados Unidos.
Em mercados onde dólares físicos são escassos ou difíceis de obter, essa característica se torna especialmente relevante.
A utilidade vai além da reserva de valor
USDT pode ser transferido entre carteiras e exchanges compatíveis em qualquer horário.
Isso permite que o ativo seja usado não apenas para poupança, mas também para pagamentos e transferências internacionais.
As opções de conversão, custos e regras variam por país.
Mesmo assim, a possibilidade de movimentar dólares digitais cria uma alternativa a processos bancários que podem ser mais lentos ou caros.
Venezuela mostra uma economia monetária híbrida
A Venezuela é um dos exemplos mais visíveis.
Empresas locais reportedly usam USDT para pagamentos no varejo e em algumas operações de importação e exportação.
A stablecoin não substituiu completamente outras moedas.
Ela circula ao lado do bolívar, do dólar físico e de outros ativos digitais.
Esse arranjo cria uma economia em que diferentes instrumentos monetários convivem simultaneamente.
USDT funciona como parte da infraestrutura comercial
Nesse ambiente, o uso não precisa ser necessariamente especulativo.
Uma empresa pode utilizar a stablecoin para preservar valor entre pagamentos.
Também pode empregá-la em transações quando acesso bancário internacional é limitado.
Isso ajuda a explicar por que a demanda pode permanecer alta mesmo quando o mercado de cripto está menos aquecido.
Venezuela recebeu US$ 44,6 bilhões em cripto
Chainalysis estimou que a Venezuela recebeu US$ 44,6 bilhões em valor de criptomoedas entre julho de 2022 e junho de 2025.
Esse número inclui todos os ativos monitorados.
Não representa apenas USDT.
Mesmo assim, mostra a escala que o mercado de ativos digitais atingiu no país.
A posição global também chama atenção
No Global Crypto Adoption Index de 2025, a Venezuela ficou em 18º lugar.
Ajustada pela população, alcançou a nona posição mundial.
Essa diferença mostra que o uso proporcional de cripto no país é ainda mais relevante do que o volume absoluto sugere.
Esse tipo de adoção ajuda a sustentar a presença de stablecoins na economia local.
Argentina movimentou US$ 93,9 bilhões
A Argentina respondeu por um volume estimado de US$ 93,9 bilhões em cripto entre julho de 2022 e junho de 2025.
O país também ficou em 20º lugar no ranking global de adoção da Chainalysis.
Novamente, os números cobrem todo o mercado de cripto.
Mas eles mostram que existe uma infraestrutura ampla pela qual stablecoins podem circular.
Inflação argentina mantém demanda por alternativas
O país continua enfrentando pressão inflacionária e cambial.
Segundo o FMI, a inflação mensal chegou a 3,4% em março de 2026.
O resultado veio após desvalorização da moeda e menor demanda por pesos.
Quando a moeda local perde poder de compra, ativos ligados ao dólar podem ganhar relevância como instrumento de proteção.
Stablecoins não significam abandono completo da moeda local
O crescimento do USDT não significa que pesos, bolívares ou outras moedas deixam de ser usados.
Na prática, o usuário pode alternar entre diferentes instrumentos.
A stablecoin pode funcionar como reserva.
A moeda local pode continuar sendo usada para determinadas despesas.
Essa convivência é uma característica importante dos mercados onde o USDT cresce.
Bolívia oferece o sinal oficial mais claro
A Bolívia apresenta um caso diferente porque o próprio banco central passou a publicar uma taxa de referência para o USDT.
A cotação é calculada com base em atividade peer-to-peer ponderada na Binance.
Esse dado mostra como a stablecoin é negociada em relação à taxa oficial do dólar.
USDT negocia com prêmio sobre o dólar oficial
Os dados do Banco Central da Bolívia mostram que o USDT pode ser negociado com prêmio sobre a taxa oficial.
Esse diferencial revela a disposição dos usuários de pagar mais para obter acesso a dólares digitais.
Quando existe restrição na disponibilidade de moeda estrangeira, esse prêmio funciona como um indicador direto da pressão no mercado.
Reservas internacionais também são preocupação
O relatório de estabilidade financeira de janeiro do banco central citou restrições em moeda estrangeira, inflação mais alta e reservas internacionais baixas como riscos.
Esses fatores ajudam a explicar por que alternativas digitais ganham espaço.
Quando o sistema tradicional não consegue atender completamente a demanda por dólar, stablecoins podem preencher parte dessa lacuna.
Bancos bolivianos já oferecem serviços relacionados
Alguns bancos locais já disponibilizam serviços envolvendo USDT.
Empresas também usaram cripto em pagamentos internacionais e transações relacionadas a combustíveis.
Esse tipo de uso aproxima stablecoins da infraestrutura financeira tradicional.
Mas isso não significa que o processo regulatório esteja concluído.
USDT ainda não virou moeda de curso legal
O governo boliviano avançou na direção de reconhecer USDT dentro do sistema nacional de pagamentos.
Mesmo assim, ainda não existe um marco completo que torne a stablecoin equivalente a moeda de curso legal.
Essa diferença é essencial.
Uso comercial e integração bancária não são a mesma coisa que reconhecimento legal pleno.
América Latina movimentou quase US$ 1,5 trilhão
A dimensão regional ajuda a colocar esses casos em perspectiva.
Chainalysis estimou quase US$ 1,5 trilhão em atividade cripto na América Latina entre julho de 2022 e junho de 2025.
Argentina respondeu por US$ 93,9 bilhões.
Venezuela, por US$ 44,6 bilhões.
Bolívia, por US$ 14,8 bilhões.
Esses números mostram que os mercados nacionais fazem parte de uma tendência regional muito maior.
Exchanges centralizadas dominam o acesso
Cerca de 64% da atividade regional passou por exchanges centralizadas.
Isso é importante porque mostra que a adoção ainda depende fortemente de plataformas tradicionais de negociação.
Carteiras descentralizadas e protocolos onchain participam do mercado, mas não são o principal canal de entrada para a maioria dos usuários.
Stablecoins já superam Bitcoin em certas compras
Dados relacionados da Bitso mostraram que stablecoins em dólar responderam por 40% das compras dos usuários em 2025.
Bitcoin representou 18%.
A plataforma opera em vários países latino-americanos.
Portanto, esses números não devem ser interpretados como dados específicos da Argentina.
Mesmo assim, eles ilustram como o papel dos stablecoins é diferente do papel do Bitcoin.
Usuários procuram estabilidade mais do que valorização
Bitcoin pode ser comprado com expectativa de valorização ou como ativo de longo prazo.
USDT oferece outra proposta.
Seu objetivo é permanecer próximo de US$ 1.
Em mercados inflacionários, essa estabilidade relativa pode ser mais importante do que buscar grandes ganhos.
Isso ajuda a explicar a preferência observada em parte dos usuários.
A Turquia mostra que a tendência não é apenas latino-americana
Ardoino também destacou a Turquia.
O país ainda enfrenta inflação elevada.
O FMI informou que a inflação ao consumidor caiu de 49,4% em setembro de 2024 para 30,9% em dezembro de 2025.
A projeção era de 23% no fim de 2026.
Mesmo em trajetória de queda, esses níveis mantêm relevante a busca por proteção cambial.
Turquia ficou em 14º lugar no ranking global
A Chainalysis colocou a Turquia na 14ª posição do Global Crypto Adoption Index de 2025.
Isso reforça a ideia de que a combinação entre inflação e interesse por ativos digitais não é exclusiva da América Latina.
Diferentes economias podem chegar ao USDT por razões semelhantes.
Tether estima alcance superior a 570 milhões
A empresa afirma que seus produtos atendiam mais de 570 milhões de pessoas em março de 2026.
Esse é um número fornecido pela própria Tether.
Ele não representa uma contagem exata de indivíduos identificados, pois uma mesma pessoa pode controlar vários endereços.
Mesmo assim, a estimativa mostra a escala que a companhia atribui à sua rede.
Oferta de USDT chegou a US$ 188 bilhões
A emissão da stablecoin também alcançou um recorde de US$ 188 bilhões em 2026.
Esse volume consolidou USDT como a maior stablecoin denominada em dólar.
Quanto maior a oferta, maior também sua presença potencial em exchanges, carteiras e sistemas de pagamento.
Crescimento não elimina riscos
USDT não é um depósito bancário.
Ele representa uma obrigação sustentada pelas reservas da Tether.
O usuário continua exposto a riscos do emissor, da carteira, da blockchain utilizada e de mudanças regulatórias.
Esses riscos são particularmente relevantes quando o ativo passa a ser usado como ferramenta cotidiana de poupança.
Regras locais podem mudar rapidamente
Governos podem restringir stablecoins.
Exchanges podem alterar acesso.
Bancos podem mudar sua política.
Por isso, a utilidade atual do USDT em uma determinada economia não garante que o mesmo nível de acesso permanecerá no futuro.
A adoção continua dependente do ambiente regulatório.
O principal diferencial é a função monetária
O crescimento do USDT em países de moedas instáveis mostra uma mudança importante no mercado cripto.
O ativo não está sendo usado apenas como ponte entre tokens.
Ele também pode funcionar como reserva digital em dólar, meio de pagamento e instrumento para comércio internacional.
Essa utilidade torna sua adoção menos dependente de ciclos especulativos.
Conclusão
Venezuela, Argentina e Bolívia mostram como stablecoins em dólar estão assumindo funções práticas em economias com inflação, restrições cambiais e acesso limitado a dólares.
Os dados regionais não medem exclusivamente USDT, mas confirmam uma expansão significativa do mercado de ativos digitais e da procura por instrumentos denominados em dólar.
Ponto-chave final
O avanço do USDT na América Latina está ligado principalmente à necessidade de acesso ao dólar, não apenas ao interesse em cripto. Quando usuários enfrentam moedas locais enfraquecidas, escassez de dólares físicos ou transferências internacionais caras, uma stablecoin pode funcionar como alternativa prática. O crescimento é relevante, mas continua acompanhado por riscos de emissor, regulamentação, carteira e infraestrutura.

