A guerra na Ucrânia entra em uma fase na qual a Rússia parece cada vez mais exposta, não apenas na linha de frente, mas também em sua profundidade estratégica. Segundo a avaliação publicada em 6 de junho pelo Institute for the Study of War, várias fontes concluem que o desempenho militar russo está se deteriorando, apesar de diferenças metodológicas na forma de mapear ganhos e perdas territoriais. Ao mesmo tempo, a Ucrânia intensifica seus ataques de longo e médio alcance contra infraestruturas militares, energéticas e logísticas russas.
O sinal mais visível veio de São Petersburgo. As forças ucranianas realizaram uma segunda série de ataques contra a região enquanto o Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo chegava ao fim. Os alvos teriam incluído a base naval de Kronstadt, o depósito de petróleo de Petergofskaya, o terminal petrolífero Neste em Lomonosov e um arsenal militar próximo à baía do Neva. Esses ataques tiveram importância simbólica e operacional: mostraram que a Rússia tem dificuldade para proteger suas grandes cidades, mesmo durante um evento internacional criado para projetar estabilidade, força econômica e controle político.
No plano econômico, a pressão também se espalha pelo setor energético russo. A escassez de gasolina se multiplica na Crimeia ocupada e em várias regiões da Rússia, provocando longas filas na Ponte de Kerch e em postos de combustível. Esse fenômeno pode piorar com a demanda de verão, enquanto ataques ucranianos contra infraestrutura petrolífera e linhas logísticas russas prejudicam a circulação de combustíveis e equipamentos.
Para mercados e observadores geopolíticos, essa evolução é relevante. Ela mostra que a Ucrânia tenta transformar suas capacidades de ataque em pressão estratégica sobre a economia de guerra russa, a logística militar, a confiança doméstica e a credibilidade internacional do Kremlin.
O desempenho militar russo mostra sinais de declínio
Várias fontes citadas na avaliação concluem que o Exército russo avança mais lentamente e perde mais espaço em algumas áreas. Fontes ucranianas citadas pelo Militarnyi afirmam que as forças ucranianas restauraram controle ou eliminaram infiltrações russas em cerca de 250 quilômetros quadrados em maio de 2026, enquanto forças russas teriam tomado aproximadamente 130 quilômetros quadrados no mesmo período.
O ISW chega a uma conclusão geral semelhante, embora seus números sejam diferentes por causa de sua metodologia. Segundo sua avaliação, as forças russas tomaram ou infiltraram cerca de 40 quilômetros quadrados em maio, mas teriam perdido o controle de aproximadamente 280 quilômetros quadrados se as áreas de infiltração forem excluídas. Essa diferença destaca um ponto importante: na guerra atual, a distinção entre infiltração, presença limitada e controle territorial real se torna cada vez mais complexa.
As linhas de frente são frequentemente fragmentadas. Pequenos grupos russos podem se infiltrar em áreas sem controlá-las no sentido militar completo. Posições ucranianas e russas podem estar intercaladas, enquanto drones ampliam zonas de perigo e dificultam a circulação. Essa realidade torna mapas de avanço menos simples de interpretar do que no início da guerra.
Ainda assim, apesar dessas nuances, a tendência geral é clara: os ganhos russos estão desacelerando, enquanto as forças ucranianas conseguem retomar ou limpar algumas áreas. Para o Kremlin, isso cria um problema estratégico. Moscou continua exibindo objetivos maximalistas, mas seus resultados no terreno parecem cada vez menos alinhados com essa retórica.
Ataques a São Petersburgo enfraquecem narrativa do Kremlin
Os ataques ucranianos contra São Petersburgo têm uma dimensão que vai além do aspecto estritamente militar. A cidade recebia o Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, evento que o Kremlin usa há anos para mostrar resiliência econômica da Rússia e atrair atenção de delegações internacionais.
O fato de drones ucranianos terem atingido locais militares e energéticos perto de São Petersburgo durante o período do fórum enfraquece essa narrativa. O Kremlin queria projetar imagem de normalidade, estabilidade e controle. Os ataques lembraram que a guerra agora pode alcançar áreas situadas a mais de 1.000 quilômetros da fronteira internacional.
Os alvos citados também são relevantes. A base naval de Kronstadt está ligada à frota russa do Báltico. Depósitos e terminais petrolíferos exercem papel na logística energética. Arsenais e centros de apoio técnico se relacionam à capacidade do Exército russo de armazenar, manter e distribuir material militar. Ao mirar essas infraestruturas, a Ucrânia busca criar efeito cumulativo sobre a capacidade russa de sustentar o esforço de guerra.
A reação das autoridades locais também é reveladora. O governador de São Petersburgo pediu que moradores permanecessem dentro de casa durante os ataques, o que teria sido uma medida incomum desde o início da invasão em larga escala. Esse tipo de orientação pode afetar a percepção pública de segurança em uma grande cidade russa.
Defesa aérea russa sob pressão
Os ataques contra São Petersburgo mostram que a Rússia precisa distribuir seus meios de defesa aérea por um território imenso. Moscou parece concentrar parte importante de seus esforços na proteção da capital, com instalação de sistemas adicionais em prédios altos. Mas essa concentração cria um dilema: quanto mais a Rússia protege Moscou, mais outras regiões estratégicas podem ficar vulneráveis.
A campanha ucraniana de ataques de longo e médio alcance impõe novas exigências à defesa aérea russa. A Rússia precisa proteger cidades, bases navais, depósitos de combustível, fábricas de defesa, linhas ferroviárias, pontes, portos e instalações energéticas. Essa dispersão pode superar a capacidade disponível, especialmente se a Ucrânia aumentar frequência e alcance de seus ataques.
O problema não é apenas técnico. Também é político. Cada ataque bem-sucedido contra uma grande cidade ou infraestrutura estratégica enfraquece a promessa implícita do Kremlin de que a guerra permanece controlada e distante do cotidiano dos russos. Quanto mais os ataques ucranianos penetram na profundidade russa, mais difícil fica sustentar essa promessa.
Para investidores e analistas de risco, isso indica que infraestruturas críticas russas continuarão expostas. Os setores de energia, transporte, defesa e logística podem sofrer mais perturbações se a campanha ucraniana continuar se intensificando.
Falta de combustível vira risco econômico
A escassez de gasolina na Crimeia ocupada e em várias regiões russas adiciona outro nível de pressão. Longas filas foram relatadas perto da Ponte de Kerch, enquanto motoristas vindos da Crimeia estariam se deslocando para o krai de Krasnodar para comprar combustível. Alguns postos na Crimeia limitaram as vendas a 20 litros para clientes com cupons previamente comprados.
Essas restrições sinalizam um mercado sob tensão. Quando consumidores começam a se deslocar para outras regiões em busca de combustível, podem exportar a escassez para áreas vizinhas. Isso pode pressionar estoques, alongar filas e criar efeito de contágio logístico.
O fenômeno não se limita à Crimeia. Escassez ou tensões de abastecimento foram relatadas em várias regiões russas, incluindo Belgorod, Kursk, Leningrado, Saratov, Riazan, Moscou, Tomsk, Murmansk, Voronezh, Orel, Novgorod, Kamchatka, Carélia e krai de Krasnoyarsk. Segundo a avaliação, os esforços russos para evitar repetição da crise de combustível de 2025 parecem ter falhado.
A diferença é preocupante para Moscou: as escassezes atuais surgem mais cedo na temporada, antes dos meses de forte demanda de verão. Se as necessidades aumentarem com deslocamentos, agricultura, logística militar e atividades industriais, a pressão pode piorar.
Ataques ucranianos perturbam linhas logísticas russas
A Ucrânia também mantém uma campanha de ataques de médio alcance contra linhas terrestres de comunicação russas na Ucrânia ocupada. O chefe da entidade separatista de Luhansk proibiu veículos comerciais de transporte de passageiros de usarem alguns eixos importantes, incluindo a rodovia Rostov-Crimeia e parte da rota Belgorod-Mariupol que atravessa o oblast ocupado de Luhansk. Os serviços ferroviários suburbanos também foram proibidos na região.
Essas restrições mostram que os ataques ucranianos começam a alterar comportamentos de circulação. Quando uma autoridade de ocupação restringe o uso de eixos importantes, isso significa que essas rotas são consideradas vulneráveis ou difíceis de proteger. Para o Exército russo, isso pode complicar o transporte de combustível, munições, reforços e equipamentos.
As forças ucranianas também teriam obtido uma forma de controle por fogo sobre áreas importantes do corredor terrestre que liga a Rússia à Crimeia ocupada. Os ataques contra a rota Melitopol-Chonhar e outros eixos logísticos tornam mais difícil abastecer a Crimeia e as forças russas no sul.
A logística costuma ser menos visível do que os combates na linha de frente, mas é essencial. Um exército só consegue manter território se recebe combustível, munição, peças de reposição, alimentos e rotação de pessoal. Ao mirar linhas de comunicação, a Ucrânia tenta reduzir a capacidade russa de sustentar seu dispositivo.
Moscou mantém linha maximalista apesar das dificuldades
Apesar desses sinais de fragilidade, autoridades russas continuam rejeitando qualquer acordo negociado que não responda às supostas “causas profundas” da guerra. O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, declarou que restaurar os direitos dos russos e falantes de russo na Ucrânia é condição necessária para uma paz duradoura.
Essa formulação repete uma linguagem recorrente do Kremlin, usada para justificar exigências maximalistas. Moscou apresenta seus objetivos como ligados à proteção de falantes de russo, à segurança e à correção de supostas “causas” do conflito. Na prática, esse quadro permite ao Kremlin manter demandas políticas amplas, mesmo quando seu desempenho militar se deteriora.
O presidente Vladimir Putin também indicou que não está disposto a se afastar de seus objetivos iniciais de guerra. Isso significa que Moscou continua buscando um resultado político muito ambicioso, embora seus avanços militares estejam diminuindo e a Ucrânia esteja ampliando sua capacidade de atacar a profundidade russa.
Para os mercados, essa rigidez reduz a probabilidade de um acordo rápido. Ela prolonga a incerteza em torno de energia, sanções, gastos de defesa, commodities e risco geopolítico europeu.
Impacto sobre energia, commodities e mercados
Os ataques ucranianos contra infraestruturas petrolíferas russas e a escassez de combustível podem influenciar vários mercados. A Rússia continua sendo um ator importante na energia global, mesmo sob sanções. Qualquer perturbação em suas estruturas de refino, armazenamento ou distribuição pode afetar preços regionais, margens, fluxos de exportação e custos logísticos.
As escassezes internas também podem obrigar Moscou a escolher entre necessidades civis, militares e exportações. Se a demanda doméstica aumentar durante o verão, as autoridades podem precisar reforçar restrições, subsidiar algumas regiões ou mudar prioridades de distribuição. Isso pode pesar sobre as finanças públicas e a estabilidade econômica local.
Os mercados agrícolas também podem ser indiretamente afetados. Combustível é essencial para transporte, máquinas agrícolas e distribuição de alimentos. Se a escassez se ampliar, algumas cadeias internas podem ser prejudicadas, mesmo que o impacto internacional dependa da duração e intensidade do problema.
Por fim, ataques ucranianos a instalações militares e energéticas russas podem influenciar o sentimento dos investidores em relação ao risco geopolítico. Uma guerra que alcança mais locais em profundidade se torna mais difícil de tratar como localizada.
O que investidores devem acompanhar
Investidores devem acompanhar primeiro a frequência e o alcance dos ataques ucranianos. Se as ações contra São Petersburgo, depósitos de petróleo, portos e fábricas de defesa continuarem, a pressão sobre infraestruturas russas pode se intensificar.
O segundo fator é a evolução da falta de combustível. Se continuar localizada, o impacto econômico pode ser contido. Se se espalhar durante o verão, pode virar um problema nacional mais sério.
O terceiro ponto envolve as linhas logísticas na Ucrânia ocupada. Qualquer nova restrição em estradas, ferrovias ou pontes pode indicar deterioração da capacidade russa de sustentar suas forças.
O quarto elemento é a defesa aérea russa. As decisões de Moscou sobre distribuição de sistemas entre a capital, grandes cidades, bases militares e locais energéticos darão uma indicação de suas prioridades.
Por fim, os mercados devem observar a retórica do Kremlin. Enquanto Moscou rejeitar compromissos e mantiver seus objetivos iniciais, a guerra tende a continuar longa, cara e economicamente perturbadora.
Conclusão
A avaliação de 6 de junho mostra uma Rússia enfrentando várias pressões simultâneas: desaceleração de seus ganhos militares, ataques ucranianos em profundidade, vulnerabilidades de defesa aérea, escassez de combustível e perturbações logísticas nos territórios ocupados. Os ataques a São Petersburgo durante o fórum econômico enfraqueceram especialmente a narrativa de estabilidade que o Kremlin queria apresentar ao público doméstico e às delegações estrangeiras.
A Ucrânia parece tentar ampliar o campo de pressão para além da linha de frente imediata, mirando infraestruturas que sustentam a economia de guerra russa. Essa estratégia não garante uma virada rápida no conflito, mas complica os cálculos militares e políticos de Moscou.
Ponto final
A guerra na Ucrânia não se desenrola apenas nas trincheiras do Donbass ou do sul. Ela também ocorre em depósitos de combustível, bases navais, portos, linhas logísticas e grandes cidades russas. Enquanto a Ucrânia puder atingir essas vulnerabilidades, o custo econômico e político da guerra para Moscou continuará aumentando.

