Durante anos, o setor de software foi um dos territórios favoritos dos investidores de crescimento. A tese era simples, elegante e extremamente poderosa: empresas capazes de crescer rápido, continuar leves em ativos e expandir receita sem carregar o mesmo peso operacional de setores tradicionais. Nesse universo, a promessa muitas vezes valia mais do que o lucro, e a capacidade de contar uma boa história de expansão futura bastava para justificar valuations elevados.
Essa lógica funcionou por muito tempo. Mas o mercado mudou. E hoje, as empresas de software precisam fazer muito mais do que prometer. Elas precisam provar que sabem gerar lucro, usar a inteligência artificial de maneira concreta e falar com um investidor que já não quer pagar qualquer preço apenas por expectativa de crescimento.
É justamente essa nova realidade que a análise da Barron’s destaca, por meio das observações de Gil Luria, analista da D.A. Davidson. A conclusão dele é clara: o setor de software ainda pode voltar a ser atraente, mas somente se as empresas aceitarem jogar com novas regras. O mercado já não recompensa discursos vagos. Ele quer disciplina, execução e, acima de tudo, evidência concreta de que a IA pode fortalecer margens em vez de ameaçar o modelo de negócios.
A grande virada do setor de software
Há pouco mais de uma década, muitos investidores aceitavam tranquilamente a ausência de lucros em várias empresas de software. A ideia dominante era que essas companhias tinham uma qualidade quase mágica: uma vez criado o produto, ele podia ser vendido em larga escala com custos marginais relativamente baixos. Isso deu ao software uma aura especial, quase mítica, dentro dos mercados.
Mas os últimos cinco anos foram bem menos generosos. O ETF iShares Expanded Tech-Software Sector sofreu bastante, especialmente após uma queda de 28% desde o fim de outubro. Essa fraqueza não é apenas fruto de um acidente de mercado. Ela reflete uma mudança profunda na forma como os investidores avaliam empresas.
Depois da pandemia, a alta dos juros mudou as prioridades. Quando o dinheiro deixa de ser quase gratuito, o mercado se torna menos tolerante com promessas distantes. Os investidores passam a preferir lucro, geração de caixa e visibilidade financeira em vez de simples crescimento de receita. Em outras palavras, Wall Street saiu de uma lógica de narrativa para uma lógica de demonstração.
A inteligência artificial mudou a equação
Como se essa mudança de regime financeiro já não fosse suficiente, o setor de software ainda precisa enfrentar outra grande preocupação: a inteligência artificial.
Para muitos investidores, a IA não é apenas uma oportunidade. Ela também é uma ameaça. O mercado teme que certas empresas de software acabem sendo contornadas, substituídas ou enfraquecidas por novas ferramentas mais poderosas, muitas delas impulsionadas por nomes como OpenAI e Anthropic. Esses grupos capturam grande parte do entusiasmo e do capital, enquanto várias empresas listadas de software ainda têm dificuldade para convencer que continuarão no centro do jogo.
Gil Luria acredita que esse medo está parcialmente correto. Sim, algumas empresas serão pressionadas. Sim, alguns segmentos podem sofrer bastante. Mas isso não significa que todo o setor esteja condenado. Significa, sim, que as empresas de software precisam mudar a forma como falam com o mercado e, mais importante ainda, a forma como operam.
Primeira exigência: parar de vender uma promessa vaga de IA
Segundo Luria, as companhias de software precisam primeiro deixar de simplesmente dizer aos investidores que vão criar produtos vencedores baseados em IA. Esse discurso já não é suficiente. Os investidores já conseguem enxergar o volume gigantesco de capital que está chegando a OpenAI e Anthropic, dois pioneiros dos agentes de IA cujas avaliações privadas combinadas já ultrapassariam com folga US$ 1 trilhão.
Nesse ambiente, uma empresa listada de software não pode mais se contentar em afirmar que também terá sua estratégia de IA. O mercado quer algo mais concreto. Quer entender como a empresa ajudará seus clientes a incorporar agentes de OpenAI, Anthropic e outros dentro de seus próprios produtos e fluxos de trabalho.
Essa nuance é essencial. O futuro do software provavelmente não ficará apenas com quem cria os modelos mais famosos. Ele também pertencerá a quem souber integrar, operacionalizar e tornar útil a IA dentro das empresas. Os vencedores não serão apenas os criadores dos grandes modelos, mas também os editores capazes de transformar esses sistemas em ferramentas reais de trabalho.
Segunda exigência: usar a IA para elevar as margens
A segunda exigência do mercado é ainda mais concreta. As empresas de software precisam demonstrar que conseguem usar a IA nelas mesmas.
Isso significa crescer com número de funcionários estável ou até menor. Em teoria, o software é um dos setores mais bem posicionados para se beneficiar da IA, justamente porque boa parte de seus custos está em desenvolvimento, engenharia e operações digitais. Se a IA permitir tornar essas funções muito mais eficientes, o impacto sobre as margens pode ser enorme.
Luria chega a dizer que as empresas de software estão “na melhor posição” para se beneficiar da revolução da IA, porque seus custos de desenvolvimento podem se tornar até dez vezes mais eficientes. Mas essa afirmação agora precisa aparecer nos resultados.
O mercado quer ver surpresas positivas nos lucros. E isso é especialmente importante porque surpresas positivas em receita podem ficar mais difíceis em um ambiente mais competitivo. Os investidores querem ver empresas que consigam transformar a IA em ganho real de eficiência operacional, e não apenas em argumento de apresentação.
Terceira exigência: finalmente falar com os investidores de valor
O terceiro desafio é quase cultural. Durante anos, uma parte do setor de software viveu falando quase exclusivamente com investidores de crescimento. Agora, com valuations comprimidos, tornou-se necessário atrair também investidores mais sensíveis a valor.
Para isso, as empresas precisam adotar comportamentos mais disciplinados. Luria destaca especialmente um ponto sensível: o uso excessivo de ações como compensação. Enquanto a disputa por talento era feroz e o crescimento era o principal argumento, o mercado aceitava melhor esse tipo de prática. Hoje, isso mudou bastante.
Agora, os investidores querem ver uma gestão mais rigorosa do capital. Eles querem empresas que respeitem mais a criação de valor por ação, e não apenas a expansão do negócio em termos absolutos. Em resumo, as empresas de software precisam se tornar financeiramente mais críveis se quiserem reconquistar uma base acionária mais ampla.
Nem todos os segmentos vão reagir da mesma forma
Mesmo com valuations mais baixos, isso não significa que todo o setor de software mereça automaticamente uma recuperação. Luria alerta para certas categorias que podem estar expostas a mudanças estruturais tão profundas que uma retomada simples se torna improvável.
Ele cita, por exemplo, empresas de software para call centers. Nesse segmento, a transformação provocada pela IA pode ser tão radical que alguns modelos de negócio terão dificuldade real para sobreviver. O problema não seria apenas pressão sobre margens ou desaceleração de crescimento. Seria uma reconfiguração completa da proposta de valor.
Essa distinção é fundamental. O retorno do interesse por software não será uniforme. Ele será seletivo. O mercado vai procurar empresas capazes de provar que ainda conseguem crescer bem, ou que podem melhorar muito sua estrutura de custos com IA, ou ainda que podem virar alvos plausíveis de aquisição com valuations mais razoáveis.
As ações que podem reagir primeiro
Entre as companhias que podem mostrar mais força ou voltar antes para o radar dos investidores, Luria separa alguns grupos.
O primeiro inclui empresas que ainda podem entregar crescimento sólido neste ano, mostrando que foram penalizadas de forma exagerada junto com o restante do setor. Nessa categoria, ele cita Microsoft, que caiu 20% em seis meses e negocia a cerca de 22 vezes os lucros projetados para os próximos quatro trimestres, e Oracle, que recuou 44% e negocia perto de 21 vezes.
Esses dois nomes chamam atenção porque combinam escala, credibilidade, exposição direta à IA e valuations que ficaram mais razoáveis. Eles já não são vistos como histórias infinitamente caras de crescimento puro, mas continuam ocupando posições estratégicas muito fortes.
Luria também menciona Datadog e Snowflake, embora essas companhias ainda sejam mais jovens e negociem a múltiplos de lucro mais exigentes. Mesmo assim, entram na lista dos nomes que podem mostrar que caíram mais do que mereciam junto com o grupo.
Empresas que podem surpreender pelo lado dos lucros
Um segundo grupo reúne empresas que podem usar IA para reduzir custos e surpreender positivamente em lucratividade. Aqui, Luria cita Zeta Global Holdings, Braze e Amplitude.
A Zeta chama atenção porque combina valuation já relativamente moderado com potencial de melhora operacional. A Braze se destaca não apenas por suas perspectivas, mas também porque pode aparecer como alvo plausível de aquisição. Já a Amplitude continua mais frágil em rentabilidade, mas pode interessar em um cenário em que o mercado volte a valorizar histórias de recuperação bem executada.
Valuations mais baixos também podem estimular aquisições
Uma das boas notícias apontadas por Luria é que os valuations do setor talvez já tenham caído o suficiente para estimular operações de fusões e aquisições. A imagem que ele usa é bastante reveladora: antigamente, a Salesforce comprava empresas a 20 vezes a receita. Hoje, poderia comprar companhias a 20 vezes o fluxo de caixa.
Isso muda muita coisa. Abre espaço para compradores em caixa, para decisões mais disciplinadas e para renovado interesse por empresas que antes pareciam caras demais para qualquer negociação. Nesse contexto, nomes como Braze, Zeta e Klaviyo aparecem como possíveis alvos.
Para os investidores, isso cria outra alavanca de suporte: algumas ações de software talvez nem precisem de uma recuperação completa do entusiasmo setorial para subir. Uma simples reavaliação como alvo estratégico já poderia ser suficiente para reanimar os preços.
A lição por trás do caso Micron
Embora o artigo se desloque um pouco do software puro ao mencionar Micron Technology, a mensagem é extremamente útil para investidores: múltiplos, sozinhos, raramente contam toda a história.
A Micron pode parecer extremamente barata com base em certos lucros futuros, mas esses números dependem fortemente do período analisado e, principalmente, da sustentabilidade dos lucros atuais, amplamente impulsionados pela demanda por memória em data centers de IA.
A lição vale também para o software. Um valuation baixo pode ser real, mas não basta. Os investidores precisam perguntar se os lucros usados no cálculo são normais, sustentáveis, inflados ou deprimidos temporariamente. Em outras palavras, o setor de software entra em uma fase em que a análise precisa ficar mais fina, mais exigente e menos dependente de slogans.
O setor de software não vai voltar a ser o queridinho do mercado apenas porque ficou mais barato. Para reconquistar Wall Street, as empresas precisam agora fazer três coisas: mostrar que conseguem integrar IA de forma útil para seus clientes, provar que conseguem usar a própria IA para expandir margens e adotar uma disciplina financeira capaz de atrair também investidores de valor.
Nem todas conseguirão. Algumas categorias podem inclusive ser profundamente desestabilizadas. Mas outras parecem mais bem posicionadas para reagir, especialmente Microsoft, Oracle, Datadog, Snowflake, Zeta, Braze, Amplitude e talvez Klaviyo em um cenário de aquisição.
Em resumo, a fase em que empresas de software podiam seduzir o mercado apenas com promessas parece ter ficado para trás. A próxima etapa exigirá provas, lucros e uma estratégia de IA realmente convincente. E para as companhias capazes de entregar isso, o potencial de recuperação pode ser bastante real.

