A Kalshi aplicou uma de suas sanções mais severas até agora ao banir permanentemente o ex-deputado americano George Santos depois de concluir que ele manipulou um mercado de previsão ligado à sua própria presença no discurso do Estado da União de 2026. Segundo a decisão da exchange, Santos obteve US$ 17.839,57 em lucro com contratos que pagavam de acordo com sua presença ou ausência no evento e usou declarações públicas sobre seus planos de viagem para influenciar os preços.
A empresa também aplicou uma penalidade de US$ 71.356, exatamente quatro vezes o lucro citado no documento disciplinar. O caso chama atenção porque Santos tinha um nível de controle incomum sobre o evento negociado. Não se tratava apenas de saber algo antes do mercado. A própria decisão de comparecer ou não ao discurso poderia determinar o pagamento dos contratos.
A estrutura do mercado colocava Santos em conflito direto com outros traders
A regra 5.17(z) da Kalshi proíbe usuários de negociar contratos quando eles podem influenciar o resultado do evento subjacente. Nesse caso, a variável central era a presença do próprio Santos.
Mesmo assim, ele negociou tanto contratos “Yes”, que pagariam caso comparecesse, quanto contratos “No”, que ganhariam valor caso ele não aparecesse. Isso permitiu mudar de posicionamento conforme suas próprias circunstâncias de viagem e informações privadas sobre seus planos.
A Kalshi concluiu que houve violações relacionadas a manipulação de mercado, uso de informação material não pública, negociação de um resultado que o próprio usuário poderia influenciar e uso de esquema enganoso ligado à atividade na exchange. A plataforma também afirmou que Santos não cooperou de forma rápida e completa com sua investigação interna.
O primeiro trade usou expectativa de presença para elevar o contrato “Yes”
A cronologia divulgada pela CFTC mostra como as publicações nas redes sociais interagiram com as posições. Santos abriu sua conta em 11 de fevereiro e depositou cerca de US$ 7 mil, destinando o dinheiro exclusivamente ao mercado sobre sua presença.
Entre 12 e 22 de fevereiro, ele comprou 30.874 contratos “Yes” por US$ 6.695,94. Enquanto mantinha a posição, perguntou aos seguidores no X se deveria usar um terno sério ou um modelo com decoração chamativa no discurso.
Depois da publicação, o preço do “Yes” subiu de aproximadamente US$ 0,15 para US$ 0,70. Santos vendeu toda a posição e realizou US$ 3.448,43 em lucro.
A CFTC afirmou ainda que ele retirou US$ 10.146,07 usando uma conta Venmo criada quatro dias antes.
Informações sobre voo e trem mudaram o equilíbrio do mercado
A situação mudou em 22 de fevereiro, quando uma companhia aérea notificou Santos de que seu voo para Washington havia sido cancelado. Ele então reservou uma viagem de trem.
Na manhã seguinte, publicou que o mau tempo havia complicado sua viagem e sugeriu que o discurso talvez não acontecesse. O preço do contrato “Yes” caiu de aproximadamente US$ 0,63 para US$ 0,28.
Mais tarde, ele voltou a afirmar publicamente que compareceria ao evento e que assistiria da galeria da Câmara. Um vídeo reforçando essa intenção fez o contrato voltar de cerca de US$ 0,40 para US$ 0,70.
A sequência criou um mercado altamente sensível às declarações de uma única pessoa, justamente aquela que sabia mais sobre o resultado final.
Santos começou a apostar contra sua própria presença após reafirmar que iria
Cerca de 40 minutos depois de publicar o vídeo dizendo que compareceria, Santos começou a comprar contratos “No”. Ele acumulou 23.855 contratos por US$ 8.650,66.
Seu trem foi cancelado aproximadamente uma hora depois do início dessa posição. Mesmo assim, segundo a CFTC, ele respondeu “I am” quando outro usuário perguntou se ainda pretendia ir.
Essa parte da cronologia foi central para a análise regulatória porque mostra que o mercado continuava recebendo sinais públicos otimistas sobre sua presença enquanto ele construía uma posição que lucraria com o resultado oposto.
No dia 24, Santos publicou que estava assistindo ao discurso em uma televisão de aeroporto. O preço do “Yes” caiu de US$ 0,73 para US$ 0,02.
O trade “No” produziu mais de US$ 14 mil em lucro
A queda do contrato “Yes” aumentou o valor da posição “No”. Santos encerrou essa operação no início de 25 de fevereiro e obteve US$ 14.390,57 em lucro, de acordo com a CFTC.
Somado ao ganho anterior de US$ 3.448,43, o resultado chegou ao valor posteriormente usado pela Kalshi em sua ação disciplinar.
O caso demonstra como mercados de previsão podem ser manipulados sem a necessidade de alterar diretamente a infraestrutura da plataforma. Informações públicas capazes de mudar probabilidades percebidas já são suficientes para alterar preços, especialmente quando vêm da pessoa mais diretamente relacionada ao evento.
A Kalshi impôs banimento vitalício, enquanto a CFTC aplicou sanção de três anos
As duas punições são separadas. A Kalshi proibiu Santos permanentemente de acessar sua exchange, inclusive por meio de outra pessoa ou conta. Além disso, estabeleceu a penalidade de US$ 71.356.
A CFTC tomou uma abordagem diferente. O regulador ordenou a devolução de US$ 17.569,98, aplicou multa civil de US$ 17.500 e proibiu Santos de negociar em qualquer entidade registrada pela agência durante três anos.
Ele aceitou a ordem federal sem admitir nem negar as conclusões ou interpretações legais apresentadas.
A CFTC classificou os contratos como swaps porque os pagamentos dependiam de um evento futuro com possíveis consequências econômicas, comerciais ou financeiras.
As duas investigações avaliaram sua cooperação de maneira diferente
A Kalshi afirmou que Santos não cooperou plenamente e de forma rápida com a apuração interna. A CFTC, por outro lado, reconheceu sua cooperação durante o processo federal.
Essa diferença não significa necessariamente contradição. As duas análises foram independentes, ocorreram sob regras diferentes e avaliaram comportamentos distintos durante seus próprios procedimentos.
A exchange já havia congelado a conta e encaminhado a atividade para as autoridades. Uma investigação federal estava em andamento em junho, e a CFTC encerrou sua parte em julho. Já a investigação relatada envolvendo o Departamento de Justiça ainda não teve um desfecho anunciado publicamente.
O caso reforça o debate sobre insider trading em mercados de previsão
Kalshi opera sob supervisão da CFTC como designated contract market. Seus usuários negociam probabilidades sobre política, esportes, indicadores econômicos e outros eventos públicos.
Quanto mais esses mercados crescem, mais frequentes se tornam os casos em que alguém pode ter acesso privilegiado à informação relevante. Isso cria problemas semelhantes aos observados no mercado financeiro tradicional, mas com uma diferença importante: em alguns contratos, o usuário pode não apenas saber o resultado antecipadamente, como também influenciá-lo.
Foi exatamente essa combinação que tornou o caso Santos particularmente sensível.
Outros episódios já levaram a novas medidas de controle
Em fevereiro, a Kalshi aplicou multa de US$ 20.397,58 e suspensão de dois anos a um editor ligado ao MrBeast por negociações envolvendo vídeos ainda não publicados.
Em outro caso, promotores acusaram o membro das forças especiais do Exército americano Gannon Ken Van Dyke de usar informações classificadas para obter cerca de US$ 409.881 em contratos da Polymarket relacionados à captura de Nicolás Maduro.
Esses episódios são diferentes, mas compartilham o mesmo problema: participantes com informação superior ao restante do mercado podem transformar essa vantagem em lucro.
Kalshi está tentando fortalecer monitoramento antes que o mercado cresça ainda mais
A exchange afirma ter criado regras adicionais para declaração de empregadores, um canal para denúncias e análises de risco em mercados antes de seu lançamento.
Também firmou parceria com a StarCompliance para permitir que determinadas instituições financeiras integrem contas de funcionários a sistemas internos de supervisão.
No primeiro trimestre de 2026, a Kalshi afirma ter realizado mais de 150 investigações, bloqueado mais de 100 possíveis tentativas de insider trading e enviado 20 casos para autoridades.
Esses números mostram que a integridade do mercado deixou de ser uma questão secundária para o setor de prediction markets.
Conclusão
George Santos foi permanentemente banido da Kalshi depois que a plataforma concluiu que ele ganhou US$ 17.839,57 negociando contratos sobre sua própria presença no discurso do Estado da União. Suas publicações sobre viagem e participação provocaram grandes movimentos de preço enquanto ele alternava entre posições “Yes” e “No”.
A Kalshi aplicou uma penalidade de US$ 71.356. Separadamente, a CFTC determinou devolução de lucros, multa civil e uma proibição de negociação de três anos em entidades registradas.
Ponto-chave final
O caso Santos mostra que mercados de previsão enfrentam um problema de integridade particularmente delicado quando o trader possui controle direto sobre o evento negociado. A questão não é apenas impedir acesso a informação não pública, mas evitar que participantes usem suas próprias decisões e declarações para alterar probabilidades em benefício das posições que já possuem. À medida que esses mercados crescem, controles contra conflitos desse tipo serão fundamentais para sua credibilidade.

