O primeiro-ministro canadense Mark Carney tenta redefinir a relação econômica do Canadá com os Estados Unidos. Há mais de um ano, ele vem realizando viagens internacionais para reduzir a dependência comercial do país em relação ao mercado americano, ao mesmo tempo em que busca novas parcerias na Ásia, na Europa e no Oriente Médio. Mas, em um discurso no Economic Club of New York, sua mensagem a Wall Street foi mais equilibrada: o Canadá quer ser mais independente, sem virar as costas para investidores americanos.
Essa posição reflete o equilíbrio difícil que Ottawa precisa administrar. De um lado, as tensões comerciais com o governo Trump, as tarifas impostas a alguns produtos canadenses e as incertezas sobre o acordo Estados Unidos-México-Canadá pressionam o país a diversificar seus mercados. De outro, a economia canadense continua profundamente ligada ao capital, às empresas e às cadeias de suprimento dos Estados Unidos.
Carney tenta, portanto, construir uma nova imagem para o Canadá: um país mais resiliente, menos dependente de um único parceiro, mas ainda aberto ao investimento americano. Essa estratégia pode remodelar a política comercial canadense nos próximos anos, mas exigirá tempo, capital e execução política consistente.
Relação com Washington sob forte pressão
A visita de Mark Carney a Nova York ocorre em um momento delicado para as relações entre Ottawa e Washington. Os Estados Unidos impuseram tarifas sobre alguns bens canadenses, enquanto Donald Trump aumentou a tensão política com declarações provocativas, incluindo a ideia de transformar o Canadá no 51º estado americano.
Carney chegou ao poder apresentando-se como o líder mais preparado para administrar essa ruptura na relação entre Canadá e Estados Unidos. Ex-banqueiro central e ex-banqueiro de investimento do Goldman Sachs, ele destacou sua experiência econômica para responder a um período de grande incerteza.
Mas a pressão interna é forte. Partidos de oposição cobram do governo alívio tarifário e proteção para setores expostos às medidas americanas. As empresas canadenses, por sua vez, querem previsibilidade sobre as regras comerciais que orientam suas exportações para os Estados Unidos.
O ponto central é o acordo Estados Unidos-México-Canadá, ou USMCA, que será revisado neste verão. Para muitos líderes empresariais, sua sobrevivência é fundamental para a prosperidade do Canadá. Uma revisão profunda do tratado poderia afetar cadeias de suprimento na América do Norte, especialmente nos setores automotivo, de alumínio, energia e alimentos.
Carney busca uma nova forma de parceria
Apesar do discurso sobre diversificação, Mark Carney não apresentou os Estados Unidos como um adversário econômico a ser abandonado. Ele defendeu a ideia de uma “nova parceria” entre os dois países, baseada em um Canadá mais forte e mais autônomo.
Sua mensagem foi claramente adaptada ao público de Nova York. Diante de investidores e líderes empresariais, Carney insistiu que um Canadá mais resiliente também pode ser bom para os Estados Unidos. Ele chegou a adaptar o slogan político popularizado por Donald Trump ao afirmar que um “Canadá forte” poderia ajudar a tornar a América mais forte.
Essa abordagem busca tranquilizar Wall Street. O Canadá não quer excluir o capital americano de sua estratégia de crescimento. Pelo contrário, quer convencer investidores de que a diversificação canadense pode criar novas oportunidades em infraestrutura, energia, recursos naturais, tecnologia, logística e indústria.
Lori Turnbull, cientista política da Universidade Dalhousie, resumiu essa lógica: Carney não falava diretamente com a Casa Branca, mas com investidores e com a comunidade empresarial. Para o Canadá, ignorar o capital americano seria irrealista. O desafio é atrair esse capital enquanto reduz a vulnerabilidade política associada à dependência excessiva do comércio com os Estados Unidos.
Diversificação comercial vira prioridade nacional
Desde que chegou ao poder, Mark Carney transformou a diversificação comercial em um dos pilares de sua política externa e econômica. Ele visitou Índia, Austrália, Japão, Reino Unido e Emirados Árabes Unidos em busca de novos acordos comerciais e novos fluxos de investimento.
O governo canadense definiu uma meta ambiciosa: dobrar as exportações canadenses para países fora dos Estados Unidos até 2035. A estratégia busca reduzir o risco associado a uma economia construída durante décadas em torno da integração norte-americana.
O Canadá já possui acordos de livre comércio que cobrem mais de 50 países. Mesmo assim, cerca de três quartos de suas exportações tradicionalmente tiveram os Estados Unidos como destino. Essa concentração foi vista por muito tempo como uma vantagem, pois dava às empresas canadenses acesso fácil ao maior mercado do mundo. Mas, em um ambiente de tarifas, incerteza política e tensões bilaterais, também se torna uma fraqueza.
Carney quer corrigir essa vulnerabilidade, mas os resultados levarão tempo. Construir novos mercados não acontece em poucos meses. É preciso desenvolver infraestrutura, criar relações comerciais, adaptar cadeias logísticas, obter aprovações regulatórias e convencer empresas a mudar seus hábitos de exportação.
Primeiros resultados aparecem, mas ainda são limitados
O governo canadense afirma que seus esforços de diversificação já começam a dar resultados. Na atualização econômica e fiscal do mês passado, Ottawa informou que as exportações de bens para países fora dos Estados Unidos cresceram cerca de 36% desde 2024.
Uma parte importante desse crescimento, porém, vem de commodities. Segundo análise da RBC Economics, o avanço do comércio fora dos EUA foi impulsionado por exportações de produtos como ouro para o Reino Unido e petróleo bruto para mercados asiáticos.
Isso mostra que a diversificação é possível, mas também que ela ainda está concentrada em alguns setores. Para se tornar mais sustentável, terá de se expandir para exportações de maior valor agregado, incluindo tecnologia, produtos manufaturados, energia limpa, serviços financeiros, alimentos processados e equipamentos industriais.
Pesquisas com empresas confirmam que a mudança é lenta. Segundo a pesquisa de perspectivas empresariais do Banco do Canadá para o primeiro trimestre de 2026, apenas 13% das companhias aumentaram vendas para clientes fora dos Estados Unidos, número praticamente inalterado em relação ao trimestre anterior.
O presidente do Banco do Canadá, Tiff Macklem, reconheceu que as empresas começaram a se adaptar, mas que ainda há um longo caminho pela frente.
Energia canadense no centro da nova estratégia
Um dos primeiros sucessos significativos da agenda internacional de Carney envolve energia. Pouco antes de seu discurso em Nova York, o Canadá conseguiu um acordo com a Alemanha para a compra de um milhão de toneladas métricas de gás natural liquefeito por ano durante um período que pode chegar a duas décadas, a partir de um terminal proposto na costa da Colúmbia Britânica.
Esse acordo tem dois objetivos. Para a Alemanha, trata-se de reduzir a dependência do gás russo. Para o Canadá, representa uma oportunidade de ampliar suas exportações de energia para além do mercado americano.
Energia é uma área estratégica para Ottawa. O Canadá possui grandes recursos naturais, mas sua infraestrutura de exportação foi historicamente voltada para os Estados Unidos. Desenvolver novas rotas para a Europa e a Ásia poderia fortalecer a autonomia comercial do país.
No entanto, esses projetos exigem grandes investimentos, aprovações regulatórias, aceitação política e capacidade de execução industrial. As exportações de GNL podem se tornar um pilar da diversificação canadense, mas não resolverão sozinhas a dependência comercial do país.
Automóveis e alumínio seguem como setores sensíveis
Em seu discurso, Mark Carney citou os setores automotivo e de alumínio como áreas em que Canadá e Estados Unidos poderiam continuar trabalhando juntos e competindo com o mundo em conjunto. A mensagem busca defender a ideia de que a integração industrial norte-americana continua valiosa.
Mas esses setores também estão entre os mais expostos às tensões tarifárias. O governo Trump já afirmou várias vezes que os Estados Unidos não querem depender do Canadá para fabricar carros. Essa posição ameaça uma cadeia automotiva profundamente integrada, na qual peças, componentes e veículos frequentemente cruzam a fronteira várias vezes antes da venda final.
O alumínio também é sensível, pois é essencial para indústria, automóveis, aeroespacial e infraestrutura. Tarifas americanas sobre o alumínio canadense podem elevar custos para fabricantes dos dois lados da fronteira.
Para Carney, o desafio é mostrar que a cooperação é mais vantajosa que a ruptura. Mas isso dependerá da disposição política de Washington e da capacidade de Ottawa de defender seus interesses nas negociações comerciais.
Investidores americanos continuam essenciais
Mesmo buscando novos parceiros, o Canadá ainda depende muito dos investidores americanos. Os mercados financeiros dos Estados Unidos têm uma profundidade de capital que poucas regiões conseguem oferecer. Para financiar projetos de energia, infraestrutura, tecnologia e industrialização, Ottawa precisará de grande volume de capital privado.
Por isso, o discurso de Carney em Wall Street foi estratégico. Ele quis mostrar que a diversificação do Canadá não é uma rejeição aos Estados Unidos, mas uma tentativa de construir uma economia mais forte. Em outras palavras, o Canadá quer menos dependência comercial, mas não menos investimento americano.
Essa distinção é importante. As exportações podem se diversificar para Europa, Ásia e Oriente Médio, enquanto o financiamento de muitos projetos ainda pode vir de Nova York, de fundos americanos ou de grandes empresas norte-americanas.
Estratégia é popular, mas ainda precisa ser provada
Por enquanto, a estratégia de Carney parece contar com apoio político sólido no Canadá. Uma pesquisa do Angus Reid Institute indica que a maioria dos entrevistados acredita que o governo atingiu ou superou expectativas na diversificação de parceiros comerciais e na melhora da reputação internacional do país.
Carney também mantém alta popularidade. Seu Partido Liberal lidera o Partido Conservador por 12 pontos em pesquisa da Abacus Data, e quase metade dos entrevistados acredita que o Canadá está indo na direção certa, o melhor resultado registrado pela empresa desde 2017.
Mas popularidade não garante sucesso econômico. A diversificação comercial é medida em anos, até décadas. Analistas alertam que será preciso tempo para saber se desta vez será realmente diferente das tentativas anteriores do Canadá de reduzir sua dependência dos Estados Unidos.
Mark Carney tenta reposicionar o Canadá em uma economia global mais fragmentada. Seu objetivo é claro: reduzir a dependência comercial em relação aos Estados Unidos, fortalecer laços com outros parceiros e atrair mais investimentos internacionais. Mas seu discurso em Nova York também mostra que os Estados Unidos continuam indispensáveis para o Canadá, especialmente em capital privado.
A estratégia canadense, portanto, depende de um equilíbrio sutil. Ottawa quer diversificar exportações, mas continuar trabalhando com investidores americanos. O Canadá quer ser mais independente sem romper com seu principal vizinho econômico. Quer ampliar sua rede global sem perder as vantagens da integração norte-americana.
Os primeiros sinais são positivos, especialmente em energia e exportações de commodities. Mas o verdadeiro teste será mais longo: transformar essa diversificação em uma estrutura duradoura, capaz de sustentar o crescimento, proteger empresas contra choques políticos e fortalecer a posição do Canadá no comércio global.
Por enquanto, Carney vende uma ideia a Wall Street: um Canadá mais forte, mais autônomo e mais atraente. Resta saber se investidores, empresas e parceiros comerciais seguirão essa visão no longo prazo.

