O Bitcoin pode valer US$ 1 milhão até 2030, mas o caminho até esse nível dependeria de uma combinação exigente de expansão monetária, maior participação institucional e preservação da tese de escassez do ativo.
Essa é a visão apresentada por Alex Svanevik, cofundador e CEO da Nansen.
Em vez de apontar uma única notícia ou evento capaz de multiplicar o preço do Bitcoin, Svanevik concentra sua análise em uma tendência mais ampla: a quantidade crescente de dinheiro no sistema financeiro global em contraste com uma oferta de Bitcoin limitada pelo protocolo.
Para ele, essa combinação pode continuar elevando os patamares de preço ao longo dos próximos ciclos.
Ainda assim, o próprio cenário deve ser tratado como uma possibilidade, e não como uma previsão garantida.
O ponto central não é o halving, mas o dinheiro em circulação
O halving costuma dominar as discussões sobre os ciclos do Bitcoin, mas a tese apresentada por Svanevik vai além da redução periódica da recompensa dos mineradores.
Seu principal argumento está na expansão da oferta monetária.
Governos podem aumentar gastos e bancos centrais podem ampliar a quantidade de moeda em circulação. O Bitcoin, por outro lado, possui um limite máximo de 21 milhões de unidades.
Na visão de Svanevik, essa diferença estrutural torna o ativo uma espécie de contraponto aos sistemas monetários tradicionais.
Se mais capital procurar ativos escassos ao longo do tempo, o Bitcoin poderia se beneficiar.
O próximo halving adiciona uma variável ao cenário de 2030
O próximo halving é esperado para 2028.
O evento reduzirá novamente a quantidade de novos bitcoins distribuídos aos mineradores.
Isso acontecerá antes do prazo de 2030 utilizado por Svanevik em sua projeção.
Historicamente, os halvings apareceram próximos de importantes ciclos de valorização.
Mas eles também foram acompanhados por períodos de forte volatilidade e quedas superiores a 50%.
Portanto, a simples ocorrência de outro halving não garante que o Bitcoin seguirá o mesmo comportamento dos ciclos anteriores.
A tese de “fundos cada vez mais altos”
Um elemento específico da visão de Svanevik é a expectativa de que os ciclos futuros estabeleçam pisos de preço progressivamente maiores.
Ele acredita que o Bitcoin continuará apresentando grandes fases de valorização aproximadamente a cada quatro anos, mas que as correções terminarão em níveis superiores aos registrados anteriormente.
É dessa leitura que surge sua afirmação de que o Bitcoin talvez nunca mais caia abaixo de US$ 60 mil.
Essa é uma avaliação pessoal bastante forte e enfrenta um problema evidente: o ativo já mostrou repetidamente capacidade de atravessar níveis que investidores anteriormente tratavam como suportes duradouros.
Os US$ 60 mil ainda não são um piso comprovado
O próprio comportamento do Bitcoin em 2026 mostra por que é difícil declarar um piso permanente.
A criptomoeda negociou brevemente abaixo de US$ 60 mil em fevereiro.
Em junho, voltou a se aproximar desse nível.
Em 28 de junho, o Bitcoin permaneceu próximo de US$ 60 mil após atingir sua menor cotação desde o fim de 2024.
No início de agosto, o mercado ainda demonstrava vulnerabilidade.
Em 3 de agosto, o BTC caiu abaixo de US$ 63 mil, negociando perto de US$ 62.556 após uma queda de 4,35% em sete dias.
Peter Brandt vê risco de nova queda
A leitura de Svanevik também não é unanimidade entre traders experientes.
Peter Brandt apresentou uma visão mais cautelosa em 10 de agosto.
Uma formação de ombro-cabeça-ombro observada por ele indicava possibilidade de queda até aproximadamente US$ 58 mil caso o Bitcoin não recuperasse uma resistência importante.
Brandt não havia aberto uma posição com base nesse cenário.
Além disso, uma alta sustentada acima de US$ 67.260 enfraqueceria a configuração baixista.
A divergência entre Brandt e Svanevik mostra como uma perspectiva otimista para 2030 pode coexistir com riscos negativos no curto prazo.
Chegar a US$ 1 milhão exigiria multiplicação próxima de 16 vezes
Com o Bitcoin ao redor de US$ 64 mil, alcançar US$ 1 milhão significaria uma valorização próxima de dezesseis vezes.
Esse movimento levaria o valor totalmente diluído do ativo para perto de US$ 21 trilhões, considerando o limite máximo de 21 milhões de bitcoins.
A quantidade efetivamente em circulação ainda seria inferior ao total máximo em 2030.
Mesmo assim, o número ajuda a dimensionar a magnitude necessária para atingir o alvo.
Não se trata de uma valorização incremental, mas de uma mudança substancial na escala financeira do Bitcoin.
Outras projeções mostram uma faixa extremamente ampla
Previsões para 2030 variam significativamente.
Uma revisão publicada em agosto de 2025 reuniu diversas projeções entre US$ 250 mil e US$ 500 mil.
O mesmo levantamento citou os cenários da ARK Invest.
A gestora apresentava um cenário pessimista próximo de US$ 300 mil, um cenário base de aproximadamente US$ 700 mil e uma hipótese otimista de US$ 1,5 milhão.
Nesse contexto, a projeção de Svanevik é agressiva, mas não está fora da faixa das estimativas mais otimistas existentes.
ETFs transformaram o acesso ao Bitcoin nos Estados Unidos
Um dos elementos que podem influenciar a adoção até 2030 são os ETFs spot de Bitcoin listados nos Estados Unidos.
Esses fundos permitem que investidores obtenham exposição ao preço do BTC por meio de contas tradicionais de corretagem e aposentadoria.
Não é necessário manter diretamente as chaves privadas da criptomoeda.
Esse formato reduz algumas barreiras operacionais para investidores tradicionais e amplia as formas disponíveis de exposição ao ativo.
Mas os fluxos observados em 2026 mostram que acesso regulado não significa demanda constante.
Saídas de maio mostram o lado negativo dos ETFs
No fim de maio, os ETFs spot de Bitcoin nos Estados Unidos registraram nove sessões consecutivas de retiradas líquidas.
A saída acumulada ficou próxima de US$ 2,8 bilhões.
O iShares Bitcoin Trust, da BlackRock, respondeu por aproximadamente US$ 2,04 bilhões desse total.
No conjunto do mês, os ETFs fecharam maio com cerca de US$ 2,43 bilhões em retiradas líquidas.
Esses dados mostram que o capital institucional também pode sair rapidamente quando o ambiente de mercado se deteriora.
Agosto trouxe uma recuperação dos fluxos
A dinâmica mudou posteriormente.
Nas cinco sessões encerradas em 7 de agosto, os ETFs de Bitcoin listados nos Estados Unidos receberam mais de US$ 850 milhões.
Foi o maior total semanal de entradas desde abril.
Essa recuperação reforça o caráter bidirecional dos ETFs.
Quando existe entrada líquida, eles podem ampliar a demanda por Bitcoin.
Quando há resgates, a pressão funciona no sentido contrário.
Portanto, os ETFs fortalecem o acesso ao ativo, mas também tornam os movimentos do capital tradicional mais relevantes para seu preço.
Gestores já incluem Bitcoin em carteiras diversificadas
Documentos regulatórios mostram que alguns gestores americanos já possuem posições em ETFs de Bitcoin.
A Clear Creek Financial Management informou cerca de US$ 10,4 milhões distribuídos entre três fundos ligados ao ativo.
A maior posição era de aproximadamente US$ 9,69 milhões no BITB, da Bitwise.
Esses dados ajudam a demonstrar que o Bitcoin já aparece em algumas carteiras profissionais.
Entretanto, os relatórios Form 13F são retrospectivos.
Eles não mostram em tempo real se as posições foram mantidas, aumentadas ou vendidas posteriormente.
Bitcoin disputa espaço com o ouro na tese contra desvalorização monetária
Svanevik compara o papel potencial do Bitcoin ao do ouro.
Os dois ativos aparecem frequentemente em discussões sobre proteção contra desvalorização de moedas.
Na visão do executivo da Nansen, o Bitcoin pode conquistar uma presença maior nas carteiras justamente por oferecer uma alternativa a sistemas em que a oferta monetária pode ser expandida.
Essa comparação não significa que os dois ativos possuam o mesmo comportamento.
A volatilidade do Bitcoin continua sendo muito maior e sua estrutura de mercado é diferente.
Ainda assim, a função monetária percebida é central para a tese de longo prazo de Svanevik.
O que pode impedir o cenário de US$ 1 milhão
A projeção depende de várias condições permanecerem favoráveis.
Uma redução da liquidez global poderia enfraquecer o fluxo de capital para ativos de maior risco.
Restrições regulatórias poderiam limitar o acesso ou reduzir a participação institucional.
Os ETFs também podem voltar a registrar grandes retiradas.
Além disso, o Bitcoin precisaria preservar seu papel como ativo monetário alternativo e continuar atraindo novos compradores.
Qualquer deterioração importante nessas condições poderia dificultar o caminho até US$ 1 milhão.
2030 ainda é uma hipótese, não um destino
Svanevik não trata a meta como certeza.
Sua avaliação é que o preço de US$ 1 milhão está dentro do campo das possibilidades.
Essa distinção é essencial.
Previsões de longo prazo para Bitcoin dependem de variáveis macroeconômicas, regulatórias e de mercado que podem mudar substancialmente nos próximos anos.
Mesmo uma tendência estrutural positiva pode incluir correções profundas durante o caminho.
Conclusão
A projeção de Alex Svanevik para um Bitcoin a US$ 1 milhão até 2030 combina três ideias principais: expansão da oferta monetária, escassez programada do BTC e maior presença do ativo em carteiras de investidores individuais e institucionais.
Os ETFs spot americanos fortalecem o argumento de maior acessibilidade, mas seus fluxos voláteis também mostram como a demanda pode mudar rapidamente.
Ao mesmo tempo, a afirmação de que o Bitcoin não voltará abaixo de US$ 60 mil permanece particularmente arriscada diante do histórico recente e de projeções técnicas que ainda admitem quedas abaixo desse nível.
Ponto-chave final
O cenário de US$ 1 milhão não depende apenas de o Bitcoin continuar popular. Ele exigiria uma expansão muito maior de sua participação no sistema financeiro, acompanhada por liquidez global favorável e demanda persistente por um ativo de oferta limitada. A tese é possível dentro das premissas apresentadas por Svanevik, mas continua muito distante de uma trajetória garantida.

