A World Liberty Financial avançou em sua tentativa de transformar o USD1 em um produto operado dentro de uma estrutura bancária federal americana.
O Office of the Comptroller of the Currency concedeu aprovação preliminar condicional à World Liberty Trust Company, National Association.
Se todas as exigências forem cumpridas, a instituição poderá assumir a emissão de USD1, administrar as reservas do stablecoin e oferecer serviços de custódia de ativos digitais em escala nacional.
Ao mesmo tempo, a decisão aumentou a pressão política sobre a empresa devido à participação da família do presidente Donald Trump e a investimentos relacionados aos Emirados Árabes Unidos.
O banco ainda não pode funcionar
A aprovação do OCC não significa que a World Liberty Trust já seja uma instituição operacional.
O regulador permitiu apenas que a empresa organize o banco.
Antes da abertura, todas as condições determinadas pelo órgão precisam ser atendidas.
A empresa também depende de autorização final conforme a legislação bancária federal.
Sem a confirmação escrita do OCC, nenhum serviço pode começar.
Regulador pode retirar a autorização preliminar
O status condicional também permite que o OCC mude de posição.
Se novas informações levantarem dúvidas sobre a instituição, a agência pode alterar, suspender ou retirar sua decisão.
Esse mecanismo mantém o projeto sob supervisão durante toda a fase de preparação.
A experiência de outras empresas mostra que pode existir uma distância significativa entre receber uma aprovação inicial e efetivamente começar as operações.
Capital mínimo será de US$ 20 milhões
A World Liberty Trust precisa manter pelo menos US$ 20 milhões de capital elegível.
Também deverá solicitar ações de um Federal Reserve Bank.
Essas condições inserem a futura instituição diretamente na estrutura regulatória bancária nacional.
O projeto, porém, foi desenhado para funções específicas e não para competir com bancos comerciais tradicionais em depósitos e crédito.
O foco será stablecoin, custódia e reservas
A proposta limita as atividades a trust, custódia, administração de reservas e pagamentos relacionados.
A World Liberty Trust não pretende captar depósitos bancários comuns de consumidores.
Também não pretende oferecer empréstimos tradicionais.
A principal finalidade será administrar a infraestrutura financeira necessária ao USD1 e a outros serviços digitais autorizados.
USD1 deixaria BitGo se a autorização final chegar
Hoje, BitGo Bank & Trust atua como emissor exclusivo e custodiante de USD1.
A World Liberty pretende internalizar essas funções.
Quando estiver autorizada a abrir, a nova instituição deverá adquirir os ativos de reserva do stablecoin e assumir as obrigações correspondentes.
Até que isso aconteça, BitGo continua responsável pelo produto.
Não existe mudança imediata para os atuais usuários apenas por causa da aprovação preliminar.
A transferência pode exigir novas autorizações
Mover reservas e passivos de uma instituição para outra envolve regras bancárias específicas.
Algumas operações entre bancos e afiliadas estão sujeitas à Regulation W.
O OCC concedeu exceções a determinados limites e exigências durante a análise.
Ainda assim, a estrutura final pode exigir aprovações adicionais caso seja enquadrada em outras normas federais de fusões bancárias.
O objetivo é centralizar todas as funções de USD1
Atualmente, emissão, custódia e administração das reservas dependem de uma estrutura externa.
Com o banco próprio, a World Liberty pretende reunir tudo sob uma mesma instituição.
Isso pode simplificar controles internos e a relação com clientes institucionais.
Também coloca as principais funções do stablecoin diretamente sob exame do OCC.
Para a empresa, esse é um dos principais argumentos estratégicos do projeto.
Uma licença federal reduz a fragmentação regulatória
Uma instituição nacional pode operar os serviços autorizados em diferentes Estados sob um supervisor federal.
Essa estrutura é especialmente relevante para empresas de ativos digitais que buscam atender clientes em todo o país.
Sem ela, determinadas atividades podem depender de autorizações estaduais separadas.
O banco da World Liberty procura substituir parte dessa fragmentação por uma estrutura única.
OCC entende que bancos trust podem emitir stablecoins
A decisão cita o National Bank Act e o GENIUS Act para sustentar que bancos nacionais de trust podem custodiar ativos digitais e emitir stablecoins de pagamento.
O regulador também informou que instituições nacionais sem seguro sob sua supervisão administravam US$ 7,2 trilhões em ativos em 31 de março.
Desse total, US$ 1,7 trilhão estava relacionado a custódia e safekeeping.
Isso coloca a proposta da World Liberty dentro de uma categoria bancária já utilizada em grande escala para administração de ativos.
World Liberty entra em uma tendência maior
O setor cripto vem buscando acesso mais direto ao sistema bancário federal.
Circle, Ripple, BitGo, Fidelity Digital Assets e Paxos receberam aprovações condicionais do OCC em dezembro de 2025.
Coinbase, Crypto.com e Bridge também avançaram posteriormente.
A Circle completou sua etapa de pré-abertura e recebeu autorização final em julho.
Esse precedente mostra o caminho que a World Liberty ainda precisa percorrer.
A diferença é a dimensão política da World Liberty
Poucas dessas empresas possuem vínculos tão diretos com uma família presidencial.
Donald Trump e seus três filhos são associados à World Liberty.
O site da empresa informou que uma entidade ligada à família controla aproximadamente 38% das participações acionárias.
Esse vínculo transformou um processo bancário técnico em um debate político sobre conflito de interesses.
Warren tentou impedir o avanço da análise
Elizabeth Warren pediu ao OCC que adiasse a decisão até que Trump abandonasse seu interesse financeiro na companhia.
A senadora já havia pressionado o Comptroller Jonathan Gould durante audiência no Senado.
Ela argumentou que a situação poderia criar problemas de independência regulatória e segurança nacional.
Gould afirmou que a agência seguiria suas responsabilidades legais e conduziria o processo de forma não partidária.
OCC afirma que funcionários de carreira conduziram o processo
Na decisão, a agência respondeu diretamente às críticas.
O documento afirma que o Comptroller e os funcionários cumpriram as obrigações legais e éticas aplicáveis.
A análise teria sido conduzida por servidores de carreira.
Se o banco abrir, examinadores não políticos seriam responsáveis por sua supervisão.
A agência procura, dessa forma, separar a decisão técnica das relações políticas da família Trump.
Senado reage com projeto de lei específico
A aprovação provocou uma resposta quase imediata no Congresso.
Warren e outros nove senadores apresentaram o Ending Presidential Corruption in Banking Act.
O projeto impediria que presidente, vice-presidente, seus cônjuges ou filhos possuíssem ou controlassem uma instituição bancária.
A proposta mira diretamente situações semelhantes à da World Liberty.
Lei poderia obrigar revisão de aprovações anteriores
O texto determinaria que agências federais revisassem, em até 60 dias, certas autorizações bancárias concedidas depois de 20 de janeiro de 2025.
Se uma pessoa abrangida pela lei controlasse ou possuísse o solicitante quando a autorização foi concedida, o regulador teria que cancelar a decisão.
Essa regra poderia atingir a World Liberty caso o projeto avance exatamente nesses termos.
Por enquanto, porém, ele ainda precisa passar pelo processo legislativo.
Investimento de US$ 500 milhões dos Emirados adiciona outra frente
A estrutura acionária internacional da empresa também está sob análise.
Uma companhia de Abu Dhabi ligada ao conselheiro de segurança nacional dos Emirados Árabes Unidos, Sheikh Tahnoon bin Zayed Al Nahyan, teria comprado 49% da World Liberty por US$ 500 milhões.
O acordo foi assinado em janeiro de 2025, segundo o material fornecido.
Em junho, cinco senadores democratas pediram audiências sobre a transação.
Congresso questiona possíveis relações com decisões de política externa
Os parlamentares perguntaram se o investimento poderia ter relação com decisões posteriores envolvendo os Emirados.
Entre os temas citados estavam vendas de armas e acesso a chips avançados de inteligência artificial.
O material não estabelece que essas decisões tenham sido influenciadas pelo investimento.
A questão está sendo apresentada como objeto de investigação e questionamento político.
OCC diz que investidores estrangeiros não controlarão o banco
Durante sua análise, o regulador examinou a influência de investidores não americanos.
A conclusão foi que esses investidores não seriam acionistas principais do banco proposto.
Além disso, alguns grupos assinaram compromissos específicos de não exercer controle.
StringZ Holdings, DT Marks SC e AMGUS aderiram a esses termos em julho.
Os compromissos limitam voto e acesso a informações
Essas entidades não poderão nomear funcionários, solicitar cadeiras no conselho ou receber informações relevantes não públicas.
Também não poderão influenciar preços, operações, contratação ou decisões de gestão.
Eric Trump assinou o compromisso em nome da DT Marks.
Participações com direito de voto de 10% ou mais precisam ser mantidas apenas como investimento.
Qualquer poder de voto acima de 9,9% será exercido por procuração de maneira proporcional aos votos dos demais acionistas.
USD1 também aparece em uma operação de US$ 2 bilhões com Binance
A relação entre World Liberty e capital dos Emirados ficou ainda mais visível por meio da MGX.
A entidade, também presidida por Sheikh Tahnoon, utilizou US$ 2 bilhões em USD1 para realizar um investimento na Binance em maio de 2025.
A operação elevou significativamente a circulação do stablecoin.
Esse crescimento posteriormente passou a ser analisado com atenção devido à forte concentração do token em estruturas ligadas à Binance.
Cerca de 87% do USD1 estava ligado a carteiras da Binance
Dados da Arkham Intelligence citados em fevereiro indicavam aproximadamente US$ 4,7 bilhões de USD1 em carteiras controladas pela Binance e contas de clientes da exchange.
Isso correspondia a quase 87% da oferta de US$ 5,4 bilhões naquele momento.
A Binance afirmou que exchanges normalmente mantêm grandes quantidades dos ativos que listam.
Tanto a plataforma quanto a World Liberty negaram qualquer relacionamento impróprio.
Perdão de Changpeng Zhao aumentou o escrutínio
Outro elemento político veio depois, quando Trump concedeu perdão ao ex-CEO da Binance, Changpeng Zhao.
A Casa Branca rejeitou repetidamente acusações de conflito de interesses.
Segundo um porta-voz, os ativos do presidente são mantidos em um trust administrado por seus filhos e as decisões do governo são tomadas independentemente dos negócios familiares.
Ainda assim, a combinação entre USD1, Binance e a estrutura societária da World Liberty continua sob análise política.
A aprovação pode fortalecer USD1 entre instituições
Se o banco efetivamente abrir, USD1 passará a ter uma infraestrutura mais integrada.
A mesma instituição poderá emitir e resgatar o token, administrar as reservas e custodiar ativos digitais.
Esse modelo pode ser mais atraente para clientes institucionais que preferem operar com um único supervisor federal.
O ganho potencial está na simplificação regulatória e operacional.
Mas a aprovação final continua sendo o maior obstáculo imediato
Antes de qualquer expansão, a World Liberty precisa concluir as exigências de abertura.
O OCC ainda pode reavaliar o processo.
Transferências de reservas podem precisar de autorizações extras.
E o ambiente político pode mudar caso o projeto de lei apresentado no Senado avance.
A aprovação condicional, portanto, é uma conquista relevante, mas não o fim do processo.
Conclusão
A World Liberty Financial recebeu autorização preliminar para estruturar uma instituição nacional focada no stablecoin USD1 e em serviços de custódia.
O banco proposto poderia substituir a BitGo na emissão e administração das reservas do token e operar sob supervisão federal em todo o território americano.
Por outro lado, a empresa enfrenta uma disputa política crescente relacionada à participação da família Trump e a investimentos vinculados aos Emirados Árabes Unidos.
Ponto-chave final
O caso da World Liberty combina duas tendências que normalmente seriam analisadas separadamente: a institucionalização dos stablecoins e o conflito político em torno da propriedade bancária. Se a autorização final for concedida, USD1 ganhará uma estrutura federal mais robusta. Mas a viabilidade de longo prazo do banco também dependerá de como Congresso, OCC e outros reguladores tratam os vínculos acionários que tornaram o processo tão controverso.

