A Alphabet passou boa parte do último ano sendo tratada como uma das empresas mais bem posicionadas para vencer a corrida global por inteligência artificial. Agora, o mercado está mudando de postura.
Desde a máxima histórica registrada em 13 de maio, as ações recuaram cerca de 15% e eliminaram aproximadamente US$ 692 bilhões em valor de mercado. A queda transformou a Alphabet no segundo maior peso negativo para o S&P 500 nesse período.
O movimento não representa uma rejeição à inteligência artificial. O que mudou foi a disposição dos investidores em financiar indefinidamente uma corrida cada vez mais cara sem exigir resultados proporcionais.
Alphabet continua crescendo, possui enorme capacidade computacional e mantém uma das plataformas digitais mais fortes do mundo. Mas, depois de uma alta superior a 150% nos doze meses anteriores ao pico de maio, a companhia entrou em uma fase na qual bons ativos e grandes promessas já não bastam.
A grande preocupação deixou de ser apenas quem tem o melhor modelo
Durante grande parte da atual onda de IA, o mercado premiou empresas que demonstravam liderança tecnológica. Ter um modelo de ponta, acesso a chips, capacidade de treinamento e uma equipe forte era suficiente para justificar múltiplos elevados.
Esse padrão está mudando.
Agora, os investidores querem saber quanto custa manter essa liderança, quando o investimento começará a gerar retorno e se a empresa consegue financiar a expansão sem destruir fluxo de caixa.
Esse é justamente o ponto mais sensível para Alphabet.
A companhia aumentou significativamente seu compromisso com infraestrutura, data centers e capacidade de processamento. Em agosto, levantou US$ 25 bilhões no mercado de dívida, enquanto investidores já demonstravam desconforto com o nível de capital necessário para sustentar a estratégia.
Após os resultados de julho, o mercado reagiu negativamente aos elevados gastos de capital e ao free cash flow negativo.
O capex virou parte central da tese de investimento
Segundo o analista Divyaunsh Divatia, da Janus Henderson, o capex da Alphabet deve subir de forma significativa novamente no próximo ano.
Isso muda a narrativa.
Antes, os gastos em IA eram vistos quase automaticamente como investimento em crescimento futuro. Agora, eles são analisados como uma obrigação que precisa produzir retorno.
A preocupação cresce porque Alphabet já está recorrendo tanto ao mercado de ações quanto ao mercado de dívida para financiar uma operação cada vez mais intensiva em capital.
Se o retorno aparecer, a estratégia pode parecer visionária. Se a monetização atrasar, os mesmos gastos passam a representar pressão sobre caixa e risco de destruição de valor.
O atraso do Gemini 3.5 Pro aumentou a pressão no pior momento possível
O problema financeiro ficou mais sensível porque a Alphabet também enfrenta dúvidas sobre execução tecnológica.
Gemini 3.5 Pro está atrasado enquanto Google trabalha em melhorias, especialmente na capacidade de programação. Esse é um campo no qual Anthropic e OpenAI já são vistos como competidores fortes.
Google lançou o Gemini 3.7 Flash recentemente, mas não apresentou uma nova previsão para a chegada do Gemini 3.5 Pro.
Em um mercado que recompensa velocidade, esse silêncio pesa.
Quando uma empresa investe bilhões em infraestrutura e promete liderança em IA, atrasos deixam de parecer apenas um problema de produto. Eles começam a levantar dúvidas sobre eficiência do capital empregado.
A saída de nomes importantes ampliou a sensação de instabilidade
As mudanças internas também contribuíram para a deterioração do sentimento.
Google perdeu recentemente profissionais importantes para Anthropic e OpenAI. Jeff Dean, uma figura central da estratégia de IA da empresa, saiu para criar uma startup e levou vários colegas de alto nível.
Demis Hassabis também deixou o cargo de CEO do Google DeepMind e passou a atuar como chairman.
Esses movimentos provocaram uma queda de 4% nas ações em 5 de agosto, eliminando US$ 186 bilhões em valor de mercado em uma única sessão.
A preocupação não é simplesmente perder executivos. A questão é se a saída de talentos pode reduzir a capacidade da Alphabet de transformar sua enorme infraestrutura em modelos que realmente permaneçam na fronteira tecnológica.
A guerra por talentos, porém, não é exclusiva do Google
O problema precisa ser colocado em perspectiva.
Meta contratou Ruoming Pang, ex-chefe da equipe de modelos de IA da Apple, com um pacote de remuneração plurianual de US$ 200 milhões. Sam Altman afirmou anteriormente que Meta oferecia bônus de contratação de até US$ 100 milhões a profissionais da OpenAI.
OpenAI, por sua vez, já atraiu mais de 400 funcionários da Apple com salários elevados e grandes pacotes de opções de ações.
Portanto, perder talentos em IA não é um problema exclusivo da Alphabet. A diferença é que, depois de uma valorização tão forte, o mercado passou a penalizar com mais intensidade qualquer sinal de perda de vantagem.
Google Cloud mostra que o dinheiro da IA já começou a aparecer
Apesar das preocupações, Alphabet possui uma vantagem que não pode ser ignorada: suas operações continuam mostrando crescimento forte.
No segundo trimestre, a receita total avançou 24%, para US$ 119,8 bilhões. O Google Cloud cresceu 82%, chegando a aproximadamente US$ 24,8 bilhões.
Isso significa que a divisão já representa cerca de 20,7% das vendas totais.
Esse crescimento é importante porque mostra que Alphabet não depende apenas de uma promessa futura. O cloud já é uma máquina comercial relevante, e a expansão de IA pode aumentar ainda mais a demanda por processamento, armazenamento e modelos empresariais.
O verdadeiro desafio é saber se esse crescimento será suficiente para compensar o ritmo dos investimentos.
Os ativos estratégicos da Alphabet continuam difíceis de replicar
Mesmo após a queda, Alphabet mantém características que poucos concorrentes conseguem combinar.
A empresa possui seus próprios chips TPU, uma das maiores frotas computacionais do mundo e produtos com bilhões de usuários.
Search, YouTube, Android, Workspace e Google Cloud oferecem canais diretos para incorporar IA e monetizá-la em grande escala.
Essa distribuição reduz um dos principais riscos enfrentados por startups de IA: construir uma tecnologia excelente sem possuir uma base de usuários ou um canal de comercialização igualmente poderoso.
Para alguns investidores, esse conjunto ainda justifica otimismo.
Daniel Pilling, da Sands Capital Management, argumenta que a mudança de talentos pode até abrir espaço para uma nova equipe reposicionar Google. Em sua visão, a companhia possui chips e capacidade computacional suficientes para continuar competitiva.
O retorno de Barret Zoph reforça a tentativa de reconstruir a equipe
Google também está respondendo à pressão no mercado de talentos.
A empresa trouxe Barret Zoph de volta ao Google DeepMind. Cofundador da Thinking Machines Lab e ex-integrante do Google Brain, Zoph passou seis anos dentro do ecossistema da companhia.
A contratação adiciona experiência em pesquisa de modelos e conhecimento interno.
Mas o mercado provavelmente não premiará a ação apenas pelo currículo.
O valor real da contratação dependerá de três resultados: modelos melhores, produtos mais competitivos e cargas de trabalho no Google Cloud pelas quais clientes estejam dispostos a pagar.
Esse é o novo padrão de avaliação.
A queda de 15% não apaga a valorização dos últimos doze meses
A pressão recente também precisa ser analisada dentro de um horizonte maior.
Mesmo depois de perder US$ 692 bilhões desde o pico, Alphabet ainda acumula valorização de cerca de 65% em doze meses. Nesse período, continua superando o mercado mais amplo e seus pares entre as Magnificent Seven.
Parte da queda pode refletir simplesmente uma rotação normal de capital.
Microsoft, por exemplo, subiu mais de 25% desde o final de julho após divulgar o crescimento mais rápido de sua operação de cloud em quatro anos.
Os investidores continuam interessados em IA, mas estão selecionando com mais rigor onde colocar capital.
Wall Street está migrando de “capacidade” para “retorno”
A mudança mais importante talvez seja essa.
No início da corrida, possuir os melhores pesquisadores, chips e modelos era o principal indicador.
Agora, o mercado quer saber quanto cada dólar investido está produzindo.
Qual receita veio de IA?
Quanto o cloud está crescendo?
Qual é o efeito sobre margens?
Quando o free cash flow volta a melhorar?
Quanto capital adicional será necessário?
Essas perguntas são mais difíceis do que medir benchmarks de modelos, mas são justamente as que definem valor econômico.
O próximo balanço pode ser mais importante que o próximo anúncio de modelo
Melissa Otto, da Visible Alpha, resumiu bem essa mudança ao dizer que está menos interessada em exatamente qual pessoa ocupa determinado cargo e mais interessada no que Alphabet dirá no próximo earnings call sobre desempenho de IA e crescimento fundamental.
Esse ponto explica por que a empresa enfrenta uma pressão diferente da observada um ano atrás.
Um novo modelo pode gerar manchetes.
Uma contratação pode aliviar temores.
Mas o mercado quer números.
Sem evidências financeiras mais claras, novidades tecnológicas podem ter impacto limitado sobre o valuation.
Conclusão
A queda de US$ 692 bilhões na Alphabet mostra que Wall Street não abandonou a tese de inteligência artificial. O mercado apenas aumentou o nível de exigência.
A empresa ainda possui uma das maiores infraestruturas de computação do setor, um negócio de cloud em forte expansão, chips próprios e uma distribuição global que poucos concorrentes conseguem igualar.
Por outro lado, atrasos no Gemini, mudanças importantes na equipe e um capex cada vez maior estão fazendo investidores questionarem quando essa vantagem começará a gerar retorno suficiente para justificar o custo.
Ponto-chave final
O próximo capítulo da Alphabet não será decidido apenas por quem constrói o modelo mais inteligente. A questão central é se Google consegue transformar sua infraestrutura, seus talentos e sua enorme base de usuários em crescimento lucrativo antes que o custo da corrida por IA pressione ainda mais o caixa. Depois de uma alta excepcional e de uma perda de US$ 692 bilhões desde maio, o mercado deixou claro que agora quer prova financeira, não apenas liderança tecnológica.

