A decisão da Coinbase de recuperar o nome Coinbase Wallet mostra como a companhia está reorganizando sua porta de entrada para finanças on-chain. Depois de mais de um ano tentando transformar a antiga carteira na Base App, combinando recursos financeiros com mensagens, feed social e miniaplicativos, a empresa agora dá prioridade a um conjunto diferente de produtos: trading multichain, contratos perpétuos, mercados de previsão, ações tokenizadas, transferências e recursos de rendimento.
O ponto mais importante dessa nova estratégia não está apenas no rebranding. A Coinbase quer que a carteira funcione como um ambiente em que usuários encontrem ativos e produtos que podem nem estar disponíveis na exchange centralizada da companhia. Ryan Kass, responsável pelo produto, chamou esse modelo de “test kitchen”, ou laboratório de testes, para novas oportunidades de mercado.
Ao mesmo tempo, a carteira continua sendo self-custodial. Os clientes mantêm o controle de chaves privadas e ativos, enquanto operações são executadas on-chain por diferentes protocolos. Isso permite à Coinbase ampliar sua presença no trading sem transformar a carteira em uma simples extensão da exchange tradicional.
A carteira passa a ocupar um espaço diferente da exchange Coinbase
A diferenciação entre Coinbase Wallet e a plataforma centralizada é central para o novo modelo.
Na exchange, a companhia decide quais ativos e produtos serão listados e mantém uma infraestrutura centralizada para os clientes. Na carteira, a lógica é mais aberta. Tokens considerados long-tail podem aparecer assim que são emitidos em uma blockchain suportada.
A empresa também pretende conectar novas redes depois de seus respectivos lançamentos.
Isso cria um catálogo potencialmente muito maior do que aquele encontrado na exchange. Kass descreve a carteira justamente como um lugar onde a Coinbase pode testar produtos ou disponibilizar ativos que não precisam passar imediatamente pelo mesmo modelo aplicado à plataforma centralizada.
A abertura, porém, não é totalmente irrestrita. A Coinbase afirma que o sistema identifica e oculta automaticamente tokens classificados como golpes ou ativos maliciosos.
Além disso, classes de produtos como mercados de previsão e ações tokenizadas são submetidas a avaliações específicas de produto e compliance antes de aparecerem no aplicativo.
A companhia tenta, portanto, combinar acesso amplo ao universo on-chain com camadas de seleção diferentes dependendo do tipo de ativo.
Hyperliquid transforma a carteira em uma interface de derivativos
A integração com Hyperliquid representa uma das mudanças mais importantes na função prática do Coinbase Wallet.
Desde agosto, usuários elegíveis podem acessar mais de 290 mercados de contratos perpétuos diretamente pela interface da Coinbase. O nível máximo de alavancagem chega a 50 vezes em determinados contratos, embora nem todos ofereçam esse limite.
Os mercados abrangem Bitcoin, Ethereum, ações e commodities.
A execução das operações fica sob responsabilidade da Hyperliquid. A Coinbase fornece a interface usada para abrir, acompanhar e administrar as posições.
Essa estrutura permite que a carteira ofereça derivativos sem operar internamente o mercado que executa as ordens.
Perpétuos também são diferentes da compra direta de um ativo. Eles permitem posições compradas ou vendidas com alavancagem sem exigir que o trader possua o ativo referenciado. Diferentemente dos futuros tradicionais, não possuem vencimento, enquanto pagamentos periódicos de funding ajudam a manter seus preços próximos aos mercados spot.
A presença desses produtos reforça a transformação da carteira de simples ferramenta de armazenamento e transferência em uma interface de trading mais ampla.
O limite de 50x não está disponível para todos os usuários ou contratos
A inclusão de alavancagem elevada exige algumas distinções importantes.
O máximo de 50 vezes é oferecido somente em determinados mercados. A alavancagem varia de acordo com o ativo.
Além disso, os contratos perpétuos da Hyperliquid dentro da carteira não estão disponíveis nos Estados Unidos, Reino Unido e Canadá, entre outros mercados restritos.
Isso cria um contraste com a frase usada pela Coinbase na promoção do produto: “no KYC, no waiting, and no borders”.
O próprio site da empresa deixa claro que produtos individuais estão sujeitos a restrições baseadas em localização. Portanto, ausência de um processo convencional de cadastro para a carteira não significa acesso universal a todas as funcionalidades.
Nos Estados Unidos, a Coinbase possui uma alternativa separada. Coinbase Financial Markets oferece um serviço regulado de futuros e está registrada na CFTC como futures commission merchant, além de ser membro da National Futures Association.
Esse serviço não é o mesmo que a integração Hyperliquid dentro do Coinbase Wallet.
Ações tokenizadas colocam ativos tradicionais dentro da experiência on-chain
Outra frente da estratégia envolve ações americanas tokenizadas.
Em agosto, a Coinbase colocou na Base tokens vinculados a quatro empresas dos Estados Unidos: Apple, Nvidia, Meta e Alphabet. Eles são oferecidos a investidores não americanos elegíveis.
Os produtos foram emitidos por uma empresa controlada pela Coinbase no Abu Dhabi Global Market.
Segundo os prospectos, cada token representa um interesse beneficiário em uma ação subjacente mantida por meio de uma estrutura segregada de custódia.
Esses instrumentos não foram registrados sob o Securities Act de 1933 e não podem ser oferecidos ou vendidos a pessoas americanas.
Essa limitação é importante porque impede interpretar a expansão da carteira como disponibilidade universal de ações tokenizadas.
A Coinbase está integrando o produto ao ambiente on-chain, mas continua aplicando restrições relacionadas ao tipo de ativo e à jurisdição do usuário.
Isso mostra que a nova carteira pretende conectar mercados diferentes sem eliminar as regras específicas aplicáveis a cada um deles.
Mercados de previsão adicionam outra camada regulatória
Os mercados de previsão ampliam ainda mais o escopo financeiro do Coinbase Wallet, mas também introduzem uma área de disputa legal nos Estados Unidos.
Coinbase Financial Markets argumenta que contratos de eventos regulamentados no âmbito federal estão sob autoridade da Commodity Futures Trading Commission.
Alguns estados, entretanto, contestam contratos relacionados a esportes sob suas próprias leis de jogos e apostas.
Em agosto, um juiz federal negou à Coinbase uma medida contra a atuação de autoridades de Michigan. A decisão preliminar não encerrou o processo, mas permitiu que o estado continuasse defendendo sua autoridade sobre apostas esportivas enquanto a disputa prossegue.
Esse cenário ajuda a explicar por que a Coinbase diz realizar análises rigorosas antes de adicionar novos mercados ou categorias de ativos.
A disponibilidade técnica de um produto on-chain não determina automaticamente se ele pode ser oferecido em todas as jurisdições.
No novo Wallet, tecnologia e distribuição permanecem condicionadas às regras aplicáveis a cada mercado.
O suporte multichain reduz o antigo foco quase exclusivo na Base
A lista de redes suportadas também mostra a mudança estratégica.
Coinbase Wallet agora funciona com Base, Bitcoin, Ethereum, Solana, BNB Chain, Optimism, Arbitrum, Polygon, Avalanche, Monad e Robinhood Chain.
Monad e Robinhood Chain foram adicionadas em relação à lista anteriormente apresentada pela Base App.
Essa expansão é relevante porque o antigo posicionamento ligava fortemente o aplicativo à própria blockchain layer 2 da Coinbase.
A nova estratégia procura ampliar a descoberta e o trading para diferentes ecossistemas.
Base, entretanto, não foi abandonada.
Kass afirmou que a rede continua sendo central para Coinbase Wallet. Ativos emitidos na Base poderão aparecer naturalmente conforme ganhem atenção, mas serão mostrados ao lado de tokens de outras blockchains.
O resultado é uma arquitetura menos fechada em torno da infraestrutura própria da companhia.
Em vez de usar a carteira principalmente para aumentar o alcance da Base, Coinbase pretende usá-la como interface para múltiplas redes, mantendo sua própria blockchain como uma das principais fontes de ativos.
A autocustódia cria uma proposta diferente da plataforma centralizada
A Coinbase preservou um elemento fundamental durante toda a mudança de marca: os usuários mantêm suas próprias chaves privadas.
Isso significa que a empresa não assume a custódia dos ativos da mesma maneira que ocorre em uma conta tradicional de exchange.
O produto atua como uma interface para interagir com redes e protocolos.
Essa arquitetura é especialmente importante quando a carteira adiciona perpétuos, tokens long-tail e diferentes blockchains. A Coinbase pode ampliar o catálogo sem precisar transformar cada ativo em uma listagem convencional na exchange centralizada.
Ao mesmo tempo, a companhia adiciona ferramentas de segurança. Kass afirma que tokens identificados como golpes ou maliciosos podem ser automaticamente ocultados.
A proposta busca preservar os princípios de self-custody sem deixar toda a filtragem de risco exclusivamente para o usuário.
Isso não significa que a Coinbase garante a segurança ou o desempenho de todos os tokens disponíveis. O conteúdo fornecido apenas afirma que o sistema possui mecanismos para identificar e esconder determinados ativos problemáticos.
Seguir traders adiciona descoberta sem recuperar a antiga prioridade social
A Coinbase também mantém algumas funcionalidades que lembram a Base App.
Usuários podem seguir traders selecionados e visualizar suas atividades. Kass considera que isso pode ajudar na descoberta de oportunidades.
Essa função possui um componente social, mas seu objetivo agora está diretamente ligado ao trading.
A diferença em relação à estratégia anterior é relevante. Base App tentava construir uma experiência social ampla com mensagens, feeds, criadores e miniaplicativos. No novo Wallet, interações semelhantes são mantidas quando contribuem para a atividade financeira.
Mensagens e outras funções selecionadas também continuarão disponíveis.
Portanto, o fracasso da estratégia social não significa a remoção completa de todos os recursos desenvolvidos naquela fase.
A Coinbase parece estar reaproveitando os elementos que podem complementar trading, descoberta e transferências, enquanto abandona a ideia de que a principal identidade do aplicativo precisa ser uma rede social.
O retorno ao nome antigo reconhece uma mudança que já estava acontecendo
O rebranding formaliza um processo iniciado meses antes.
Brian Armstrong havia admitido em março que a experiência social não entregou o resultado esperado. Jesse Pollak posteriormente afirmou que a demanda por produtos voltados a criadores havia desaparecido e reconheceu que Base estava atrás de concorrentes em mercados de previsão e perpétuos.
Em julho, Pollak deixou a liderança do aplicativo com Jordan “Cobie” Fish e voltou sua atenção para o desenvolvimento da blockchain Base.
A integração Hyperliquid chegou em agosto.
Agora, o retorno do nome Coinbase Wallet consolida essa sequência.
Kass afirma que a companhia consegue mudar rapidamente quando uma estratégia não apresenta os resultados desejados. O nome anterior, em sua avaliação, descreve melhor o papel do produto dentro do conjunto de serviços da empresa.
A carteira passa a ser apresentada como a porta self-custodial da Coinbase para aquilo que a companhia chama de “everything exchange”.
A estratégia ainda não mostrou se o trading aumentou a adoção
Apesar do reposicionamento, ainda faltam números importantes para avaliar o resultado comercial.
A Coinbase não divulgou dados mostrando se a nova prioridade em trading aumentou o número de usuários.
Também não apresentou detalhes completos sobre a estrutura de taxas dentro da carteira.
A companhia obtém receita por meio de trading e tarifas de produtos, mas o material não informa quanto essas atividades estão gerando após a mudança.
Isso impede concluir que o novo modelo já seja financeiramente superior à experiência Base App.
O que está confirmado é a mudança de direção: o social perdeu prioridade e os produtos financeiros ganharam espaço.
A avaliação sobre o sucesso dessa decisão dependerá de dados futuros que ainda não foram divulgados.
Conclusão
Coinbase Wallet retorna como um produto muito diferente daquele que carregava esse nome antes da experiência Base App. A carteira agora combina autocustódia com trading multichain, mais de 290 mercados perpétuos via Hyperliquid, ações tokenizadas, mercados de previsão, descoberta de tokens e suporte a dez redes.
O novo posicionamento também separa com maior clareza a carteira da exchange centralizada. Ativos long-tail podem aparecer automaticamente em redes suportadas, enquanto classes de produtos mais complexas passam por revisões específicas. Ao mesmo tempo, diversas funcionalidades continuam restritas conforme a jurisdição do usuário.
Ponto-chave final
O retorno do nome Coinbase Wallet representa uma correção estratégica, não uma volta ao produto antigo. A Coinbase abandonou a tentativa de fazer do aplicativo uma experiência social centrada na Base e está construindo uma porta de entrada para trading on-chain em várias redes. Hyperliquid, ações tokenizadas e mercados de previsão mostram a amplitude dessa nova proposta, enquanto a autocustódia preserva a diferença em relação à exchange tradicional. O maior ponto ainda em aberto é comercial: a empresa não divulgou números que mostrem se essa mudança já trouxe mais usuários ou receita, deixando o sucesso do novo foco em trading ainda por ser demonstrado.

