A próxima etapa da CLARITY Act no Senado americano não depende apenas de convencer parlamentares de que os Estados Unidos precisam de regras mais claras para ativos digitais. A votação processual marcada para 15 de setembro tornou-se um teste sobre conflitos éticos ligados à presidência, concorrência entre stablecoins e depósitos bancários, proteção a desenvolvedores de finanças descentralizadas e a capacidade dos defensores do projeto de construir uma coalizão bipartidária de pelo menos 60 votos.
Nesse cenário, Stuart Alderoty, diretor jurídico da Ripple, está tentando mudar parte do foco político. Em vez de deixar o debate concentrado em empresas, associações comerciais e bancos, ele pediu a senadores indecisos ou contrários ao projeto que conversem diretamente com americanos que possuem criptomoedas. Alderoty citou uma estimativa da National Cryptocurrency Association segundo a qual aproximadamente 67 milhões de pessoas nos Estados Unidos possuem algum ativo digital.
A iniciativa acontece no momento em que diferentes grupos intensificam a pressão sobre o Congresso. Defensores de cripto realizaram dezenas de milhares de contatos com parlamentares durante agosto, enquanto organizações bancárias também mobilizaram seus membros contra disposições consideradas capazes de retirar depósitos do sistema bancário tradicional.
O primeiro obstáculo é chegar aos 60 votos necessários
A votação de 15 de setembro será sobre cloture para a motion to proceed, ou seja, uma etapa processual necessária para que o Senado comece formalmente a discutir o projeto.
São necessários 60 votos.
Os republicanos possuem 53 cadeiras, o que significa que não conseguem atingir o limite sozinhos.
Mesmo em um cenário no qual todos os 53 republicanos votem a favor, seriam necessários pelo menos sete democratas ou independentes.
O problema é que nem mesmo o apoio republicano integral está garantido.
Alguns integrantes do partido levantaram dúvidas sobre as regras de ética presidencial, recompensas de stablecoins e tratamento jurídico de sistemas de finanças descentralizadas.
Cada voto republicano perdido aumenta o número de parlamentares da oposição que precisam ser convencidos.
Essa matemática transforma pequenos desacordos de redação em obstáculos capazes de impedir que o projeto sequer seja debatido no plenário.
O resultado de 15 de setembro não aprovará a CLARITY Act
A distinção processual é importante.
Se o Senado aprovar cloture, a CLARITY Act não se tornará automaticamente lei.
O resultado permitirá que a Casa avance para o debate formal.
Senadores poderão discutir o texto, apresentar emendas e, posteriormente, realizar uma votação separada sobre a aprovação da legislação.
Caso os 60 votos não sejam alcançados, o Senado não conseguirá iniciar a análise pelo processo atualmente programado.
John Thune, líder da maioria no Senado, apresentou o pedido de cloture antes do recesso de agosto.
A votação ficou marcada para aproximadamente 14h15 no horário do leste em 15 de setembro, apenas um dia depois do retorno previsto dos senadores a Washington.
Esse intervalo curto deixa pouco espaço para fechar compromissos de última hora.
O histórico do projeto mostra que o Senado é o trecho mais difícil
A CLARITY Act já recebeu apoio significativo na Câmara dos Representantes.
Em julho de 2025, o texto foi aprovado por 294 votos a 134.
No Senado, porém, a margem partidária mostrou-se mais estreita.
O Comitê Bancário aprovou o projeto por 15 a 9 em maio de 2026.
Apenas dois democratas apoiaram a proposta nessa etapa.
Esse resultado demonstra que algum nível de bipartidarismo existe, mas não o suficiente para garantir os 60 votos necessários no plenário.
Os líderes precisam ampliar de forma considerável esse apoio ou impedir que republicanos abandonem a coalizão.
É nesse espaço de incerteza que Alderoty tenta introduzir o peso político dos detentores individuais de ativos digitais.
Alderoty quer transformar 67 milhões de holders em argumento político
O diretor jurídico da Ripple afirmou ter entrado em contato com gabinetes de senadores que ainda não decidiram seu voto ou que se opõem à legislação.
Seu pedido foi para que esses parlamentares se encontrem com “pessoas reais com ativos digitais”.
Alderoty argumenta que os senadores devem escutar quem possui tokens diretamente e não limitar o debate a executivos, lobistas ou associações empresariais.
A estimativa usada por ele vem da National Cryptocurrency Association.
Segundo uma pesquisa de 2026 da entidade, aproximadamente um em cada quatro adultos americanos possui alguma forma de ativo digital, totalizando cerca de 67 milhões de pessoas.
Esse número não prova que todos esses holders apoiam a CLARITY Act.
A fonte também não afirma que exista consenso entre eles.
O argumento de Alderoty é que uma população dessa dimensão deveria ser ouvida porque as regras podem afetar diretamente sua experiência com tokens e plataformas.
A mobilização política do setor já cresceu durante o recesso
O apelo de Alderoty não acontece de forma isolada.
Segundo reportagem da Reuters de 9 de setembro, apoiadores ligados à Stand With Crypto telefonaram ou enviaram e-mails a membros do Congresso quase 50 mil vezes durante agosto.
O grupo também organizou reuniões e publicou artigos de opinião em jornais locais.
O esforço aproveitou o período em que senadores passaram o recesso trabalhando em seus estados de origem.
Essa estratégia tenta transformar uma discussão técnica de Washington em tema com consequência eleitoral local.
Alderoty reforça essa linha ao colocar o foco nos indivíduos que já possuem ativos digitais.
Em vez de argumentar apenas que empresas precisam de clareza regulatória, ele afirma que milhões de eleitores também têm interesse direto no resultado.
Bancos comunitários fazem pressão no sentido contrário
Enquanto grupos ligados ao mercado cripto tentam ampliar apoio, organizações bancárias promovem sua própria campanha.
A Independent Community Bankers of America pediu que banqueiros locais entrem em contato com senadores.
O ponto central de preocupação são as disposições relacionadas a stablecoins.
Bancos comunitários argumentam que recompensas pagas sobre saldos de stablecoins poderiam atrair dinheiro que hoje permanece em depósitos segurados.
Na avaliação dessas instituições, uma redução dos depósitos também poderia diminuir os recursos disponíveis para empréstimos.
Empresas de cripto discordam de restrições que impeçam terceiros de oferecer essas recompensas.
Portanto, a discussão não é apenas sobre regulamentar tokens.
Ela também envolve como novos produtos digitais podem competir com estruturas bancárias tradicionais.
Stablecoin rewards viraram um dos pontos mais sensíveis
O impasse sobre recompensas mostra como detalhes específicos podem ameaçar um projeto regulatório muito mais amplo.
Para os bancos, permitir que saldos em stablecoins ofereçam benefícios semelhantes a remuneração pode tornar esses produtos concorrentes diretos de depósitos tradicionais.
Para o setor cripto, restringir pagamentos feitos por terceiros poderia limitar modelos de negócios e serviços existentes ou futuros.
A fonte não apresenta um acordo final sobre essa questão.
Ela apenas mostra que o tema continua aberto pouco antes da votação.
Isso significa que parlamentares que apoiam o objetivo geral da CLARITY Act ainda podem votar contra o avanço do texto caso considerem inadequada a solução escolhida para stablecoins.
A disputa ética envolve diretamente atividades ligadas ao presidente
Outro obstáculo importante está nas regras de ética presidencial.
Democratas querem limitações mais rígidas para atividades com ativos digitais envolvendo o presidente, altos funcionários públicos e suas famílias.
As preocupações incluem negócios ligados ao presidente Donald Trump e seus familiares, como a World Liberty Financial e o meme coin Official Trump.
Senadores democratas afirmam que a redação pendente não oferece proteção suficiente contra conflitos de interesse, financiamento ilícito e possível influência sobre políticas federais.
Esses questionamentos aumentaram a dificuldade de construir apoio bipartidário.
Para alguns democratas, não basta criar regras claras para exchanges, tokens e commodities se a legislação não estabelecer salvaguardas consideradas adequadas para autoridades públicas.
Republicanos também admitem que a negociação pode fracassar
As divisões não aparecem apenas em críticas da oposição.
Senadores republicanos favoráveis ao projeto também começaram a alertar sobre o risco de derrota.
Cynthia Lummis, uma das principais defensoras da CLARITY Act, responsabilizou exigências democratas por colocar a legislação em risco, embora continue afirmando que as diferenças restantes podem ser solucionadas.
Mike Rounds foi mais pessimista.
Segundo ele, as perspectivas do projeto “não parecem boas neste momento”.
Thom Tillis também alertou que a medida fracassará se parlamentares e a Casa Branca não demonstrarem interesse em fechar a distância que ainda existe em torno das regras de ética.
Essas avaliações indicam que o resultado de 15 de setembro permanece realmente incerto.
DeFi adiciona uma terceira frente de negociação
Além de ética e stablecoins, os senadores ainda debatem proteções legais para desenvolvedores de software de finanças descentralizadas.
Alguns parlamentares querem salvaguardas mais fortes para programadores que desenvolvem sistemas sem controlar ativos de clientes.
A preocupação é evitar que desenvolvedores de software sejam tratados automaticamente da mesma forma que intermediários financeiros que recebem ou administram fundos.
Outros senadores defendem regras mais rigorosas para combater lavagem de dinheiro e outras atividades financeiras ilícitas.
A fonte não apresenta uma solução final para essa divergência.
Isso significa que a redação sobre DeFi continua capaz de influenciar votos de parlamentares que, em outros aspectos, poderiam apoiar a estrutura regulatória.
O projeto tenta dividir responsabilidades entre SEC e CFTC
A CLARITY Act busca estabelecer uma estrutura federal de mercado para ativos digitais.
Um de seus principais objetivos é definir como a supervisão deve ser dividida entre a Securities and Exchange Commission e a Commodity Futures Trading Commission.
O texto também ajudaria a determinar quando um ativo digital deve ser tratado sob as leis de valores mobiliários e quando deve ser considerado uma commodity.
Para usuários americanos, essa definição pode ter efeitos concretos sobre quais ativos plataformas podem listar e quais regras federais se aplicam às transações.
A legislação ainda criaria requisitos para intermediários que atuam no mercado de ativos digitais nos Estados Unidos.
Esse é o núcleo regulatório do projeto, mesmo que os debates políticos tenham se ampliado muito além dessa divisão de competências.
Defensores querem substituir parte da incerteza atual
Os apoiadores do projeto argumentam que uma estrutura aprovada pelo Congresso poderia reduzir a incerteza gerada pela aplicação de leis existentes de valores mobiliários e commodities a produtos cripto.
A ideia é oferecer uma base estatutária específica para determinar responsabilidades regulatórias.
Críticos, especialmente alguns democratas no Senado, não rejeitam necessariamente toda forma de estrutura federal.
A objeção deles é que qualquer sistema novo também precisa incluir proteções mais fortes para consumidores, prevenção a crimes financeiros e ética governamental.
Isso explica por que a negociação se tornou tão complexa.
O conflito não é apenas entre parlamentares que querem regras e parlamentares que não querem regras.
Grande parte da disputa está em quais salvaguardas precisam acompanhar essa clareza.
Ripple tenta ampliar a narrativa para além das empresas
Executivos da Ripple já vinham defendendo ação legislativa.
No início de setembro, o CEO Brad Garlinghouse pediu que o Congresso concluísse a estrutura regulatória americana e afirmou que transformar os Estados Unidos em um centro global de cripto ainda estava “ao alcance”.
Alderoty agora adiciona um argumento diferente.
Em vez de concentrar sua mensagem apenas na competitividade da indústria americana, ele destaca as pessoas que já possuem ativos digitais.
Essa abordagem permite apresentar a CLARITY Act como uma decisão capaz de afetar consumidores e holders, não apenas companhias.
Ainda assim, o texto não prova que todos os detentores de cripto apoiam a posição da Ripple.
A empresa está defendendo que eles sejam incluídos na conversa, não demonstrando unanimidade entre os 67 milhões estimados.
Mesmo uma vitória no Senado não encerraria o processo
Se cloture for aprovado, o Senado ainda terá de debater o projeto.
Se depois aprovar uma versão modificada da CLARITY Act, surgirá outra etapa.
Qualquer texto diferente daquele aprovado pela Câmara terá de ser reconciliado entre as duas Casas.
Somente depois de uma versão comum ser aprovada o projeto poderá seguir para o presidente.
Esse detalhe é relevante porque ética, stablecoins e DeFi são exatamente os tipos de temas capazes de gerar emendas no Senado.
Mudanças significativas aumentariam a necessidade de nova análise pela Câmara.
Portanto, atingir os 60 votos seria um avanço importante, mas apenas o início de uma nova etapa legislativa.
O calendário da Câmara cria pressão adicional
A agenda legislativa também está apertada.
Depois de 15 de setembro, a Câmara está programada para ter apenas quatro dias legislativos antes de entrar novamente em recesso.
Isso deixa pouco tempo para revisar eventuais alterações aprovadas pelo Senado.
A fonte não afirma que o cronograma inviabiliza a legislação.
Ela mostra, porém, que atrasos podem criar dificuldade prática para concluir o processo.
Quanto mais demorarem as negociações no Senado, menor será a janela disponível para que a Câmara examine um texto revisado.
Esse fator transforma tempo em mais uma variável da disputa.
O voto pode falhar mesmo com apoio ao conceito de regulação
A CLARITY Act mostra como uma proposta pode ter apoio amplo em princípio e ainda enfrentar dificuldades no plenário.
Muitos parlamentares podem concordar que os Estados Unidos precisam de regras federais mais claras para ativos digitais.
Isso não significa que concordem sobre conflitos de interesse presidencial, recompensas de stablecoins ou responsabilidade de desenvolvedores DeFi.
O limite de 60 votos obriga os negociadores a construir uma coalizão que aceite todas essas áreas ao mesmo tempo.
Um único ponto de divergência pode ser suficiente para afastar um senador.
É por isso que declarações como as de Rounds e Tillis ganharam peso antes da votação.
Conclusão
A CLARITY Act chega ao teste de 15 de setembro com uma coalizão ainda incompleta. O Senado precisa de 60 votos apenas para abrir o debate formal, enquanto os republicanos possuem 53 cadeiras e ainda enfrentam divergências dentro do próprio partido. Regras de ética presidencial, recompensas de stablecoins e proteções para desenvolvedores DeFi permanecem entre os principais obstáculos.
Nesse contexto, Stuart Alderoty quer inserir os holders individuais no centro da discussão. Citando uma estimativa de 67 milhões de americanos com ativos digitais, o diretor jurídico da Ripple argumenta que senadores deveriam ouvir diretamente essas pessoas antes de decidir o futuro processual do projeto.
Ponto-chave final
O próximo voto não decidirá se a CLARITY Act vira lei. Ele decidirá se o Senado poderá começar a debatê-la. Para chegar a esse estágio, os defensores precisam superar uma matemática difícil e resolver divergências que vão muito além da divisão de competências entre SEC e CFTC. A pressão de empresas cripto, holders e bancos mostra que o projeto já se tornou uma disputa mais ampla sobre como o sistema financeiro americano deverá incorporar ativos digitais — e quais proteções precisam acompanhar essa mudança.

