Uma nova proposta pode modificar de forma significativa a economia do staking no Ethereum. Justin Drake, pesquisador da Ethereum Foundation, e outros cinco coautores apoiam um projeto que reduziria gradualmente as recompensas dos validadores conforme uma parcela maior da oferta de ETH fosse bloqueada.
O mecanismo proposto encerraria totalmente as recompensas de emissão quando 50% de todos os ETH estivessem em staking. Segundo os cálculos apresentados pela BeInCrypto, o rendimento anual atual poderia cair de aproximadamente 2,6% para perto de 1,1% nas condições atuais.
Os participantes do staking receberiam menos novos ETH. Em contrapartida, os detentores que não fazem staking sofreriam menos diluição e manteriam uma parcela ligeiramente maior da oferta total.
O projeto ainda é apenas um rascunho. Ele precisa ser analisado por editores, equipes de clientes e outros participantes do desenvolvimento do protocolo antes de entrar em uma atualização da rede.
Por que o Ethereum quer reduzir a emissão
O Ethereum recompensa usuários que bloqueiam ETH e ajudam a validar transações.
Esses pagamentos são realizados por meio da emissão de novos ETH. Eles compensam os validadores pelo capital imobilizado, pelos custos operacionais e pelos riscos envolvidos.
O problema apontado pelos autores é que a emissão nunca desaparece completamente no sistema atual.
Mesmo que toda a oferta de ETH fosse colocada em staking, o protocolo continuaria pagando um rendimento anual de aproximadamente 1,51%, segundo os cálculos citados.
Essa remuneração permanente pode incentivar o crescimento contínuo do volume bloqueado, mesmo quando a rede não precisa atrair tantos novos validadores.
A proposta, identificada como EIP-8361 na fonte, tenta remover esse piso de emissão.
Staking já representa 33,7% da oferta
Cerca de 41,1 milhões de ETH estariam atualmente em staking.
Esse volume corresponde a 33,7% de todos os ETH existentes.
A proporção já é elevada e continua crescendo. Para os autores, esse avanço pode criar problemas econômicos e estruturais.
Quanto mais ETH é bloqueado, mais o protocolo distribui recompensas aos participantes do staking. Os detentores que não participam passam a controlar uma parcela relativa menor.
Uma taxa excessiva de staking também pode concentrar poder entre poucos grandes operadores.
A proposta busca reduzir o incentivo para bloquear quantidades cada vez maiores apenas para receber novas emissões.
Como funcionaria o novo mecanismo
O sistema não eliminaria todas as recompensas de uma única vez.
Em intervalos regulares, a rede retiraria uma parte da recompensa de emissão de cada validador e destruiria os ETH correspondentes.
A proporção queimada aumentaria conforme o nível total de staking subisse.
Nas condições atuais, aproximadamente 56% da recompensa seriam destruídos. Quando o volume bloqueado chegasse a cerca de 60,25 milhões de ETH, toda a emissão seria queimada.
O rendimento baseado na criação de novos ETH cairia a zero.
A queima de tokens não é nova no Ethereum. Desde a EIP-1559, uma parte das taxas de transação já é destruída.
A diferença é que a nova proposta aplicaria uma lógica semelhante às recompensas de staking.
Rendimento poderia cair para cerca de 1,1%
Segundo os cálculos da BeInCrypto, o retorno anual do staking poderia recuar de 2,6% para aproximadamente 1,1% nas condições atuais.
Essa mudança representaria uma redução expressiva na receita ligada à emissão.
A proposta também provocaria uma queda imediata de cerca de 13% nas recompensas desde o primeiro dia.
Os validadores seriam afetados antes mesmo de a oferta bloqueada chegar ao limite de 50%.
O rendimento total, porém, não depende apenas das novas emissões. Validadores também podem receber receita de outras fontes, como a organização de transações e o Valor Máximo Extraível, conhecido como MEV.
Receitas de MEV não seriam afetadas
O mecanismo de queima não atingiria os ganhos gerados pelo MEV.
MEV representa a receita que alguns validadores podem obter ao escolher a ordem das transações dentro de um bloco.
Os autores estimam que essa fonte tenha gerado menos de 78.300 ETH no ano anterior, equivalente a um retorno máximo de aproximadamente 0,20%.
A fonte informa que a BeInCrypto não conseguiu confirmar esse número de forma independente.
Mesmo parecendo limitado, o MEV continua importante na discussão sobre concentração. Operadores maiores podem contar com mais oportunidades para otimizar esse tipo de receita.
A redução das emissões poderia diminuir os pagamentos comuns sem eliminar completamente as vantagens relacionadas ao tamanho.
Lido ainda teria espaço para crescer
A proposta afirma que os maiores operadores sentiriam a pressão primeiro.
Os cálculos citados, porém, indicam que a Lido ainda manteria espaço para expansão.
A plataforma controla cerca de 9,41 milhões de ETH, equivalentes a aproximadamente 22,9% de todo o staking.
Segundo a aplicação da fórmula proposta, novos depósitos continuariam gerando retorno para a Lido até que o staking total alcançasse aproximadamente 49 milhões de ETH.
Isso representa quase 8 milhões de ETH a mais do que o nível atual.
O mecanismo não bloquearia imediatamente o crescimento do maior operador.
Uma entidade que controlasse metade de todo o staking já teria ultrapassado o ponto no qual ampliar sua posição deixaria de gerar novas recompensas de emissão.
Validadores individuais podem sofrer mais pressão
Os participantes independentes também seriam afetados.
Suas recompensas cairiam, mas as penalidades por interrupções e erros continuariam do mesmo tamanho.
Uma falha operacional teria, portanto, um custo relativo maior.
Segundo os cálculos apresentados, recuperar as perdas causadas por algumas horas offline poderia levar cerca de quatro vezes mais tempo.
Isso pode tornar o staking doméstico menos atraente para pessoas com conexões, equipamentos ou experiência técnica mais limitados.
Também pode levar alguns usuários a escolher grandes provedores com infraestrutura mais estável.
Um mecanismo criado para reduzir a concentração poderia, em determinadas condições, ampliar a vantagem operacional das grandes plataformas.
Por que usar o limite de 50%?
Os autores reconhecem que a escolha de 50% é baseada principalmente em julgamento.
Esse nível representa o limite de maioria a partir do qual os riscos associados à concentração da oferta em staking se tornam mais relevantes segundo sua análise.
O número não foi derivado de uma medição econômica precisa ou de um teste estatístico.
Esse ponto pode se tornar uma das principais áreas de debate.
A comunidade precisará decidir se a metade da oferta é realmente o melhor limite e se o mecanismo reduz os riscos sem criar novos desequilíbrios.
Possível impacto sobre o ETH
Uma redução da emissão diminuiria a quantidade de novos ETH distribuída aos validadores.
Em teoria, isso reduziria a diluição enfrentada pelos detentores que não participam do staking.
Também poderia tornar a oferta mais restrita, principalmente se a queima de taxas de transação continuar elevada.
Por outro lado, retornos menores podem incentivar alguns validadores a retirar seus ETH ou buscar outras aplicações para o capital.
A fonte lembra que mudanças nas recompensas podem movimentar fundos rapidamente, como mostrou a fila recorde de saída de validadores registrada em 2025.
No momento da publicação, o ETH era negociado perto de US$ 1.866.
Nenhum efeito futuro sobre o preço pode ser confirmado apenas com base na proposta.
Proposta ainda está longe da aprovação
O texto continua na fase de rascunho.
Ele terá de ser revisado, modificado e aceito por diferentes grupos antes de qualquer ativação.
As equipes de clientes precisarão decidir como integrar o mecanismo aos softwares. Desenvolvedores também terão de avaliar os efeitos sobre segurança, participação dos validadores e concentração.
Depois disso, seria necessária uma atualização da rede.
A fonte não apresenta um cronograma para uma possível adoção.
Portanto, ainda é cedo para tratar a redução das recompensas como uma decisão definitiva.
O que a comunidade precisa avaliar
O primeiro ponto será o efeito sobre a segurança econômica do Ethereum.
O segundo será o equilíbrio entre grandes operadores e validadores independentes.
Também será necessário analisar se a menor emissão realmente reduz a concentração ou se torna os participantes menores menos competitivos.
O papel do MEV continuará relevante, pois essa fonte de receita não seria atingida.
Por fim, os desenvolvedores precisarão decidir se o limite de 50% possui uma justificativa suficientemente sólida.
Conclusão
Uma nova proposta do Ethereum pretende reduzir as recompensas de staking conforme a quantidade de ETH bloqueada aumenta.
O mecanismo queimaria uma parcela progressivamente maior da emissão e encerraria esses pagamentos quando metade da oferta estivesse em staking.
Segundo as estimativas apresentadas, o rendimento poderia cair de aproximadamente 2,6% para 1,1%, com uma redução imediata de 13% desde a ativação.
O projeto busca diminuir a diluição e limitar a concentração, mas pode fragilizar validadores individuais e manter algumas vantagens para grandes operadores.
Ponto-chave final
A proposta pode transformar a economia do staking do Ethereum ao reduzir fortemente a emissão, mas seu sucesso dependerá de controlar a concentração sem afastar pequenos validadores. Por enquanto, o projeto é apenas um rascunho em discussão.

