A exploração de uma vulnerabilidade nas carteiras Coldcard já teria provocado o roubo de mais de 1.300 bitcoins, avaliados em aproximadamente US$ 83 milhões, de milhares de endereços. As retiradas aconteceram em várias ondas, tornando o incidente um dos maiores fracassos de autocustódia da história do Bitcoin.
Além das perdas financeiras, o caso reabre uma discussão central para o setor: até que ponto um usuário comum consegue realmente verificar a segurança do hardware e dos softwares utilizados?
Para Jameson Lopp, pesquisador de segurança do Bitcoin e cofundador da Casa, a falha não invalida a autocustódia. Ela revela, porém, os limites práticos do princípio “não confie, verifique”, frequentemente tratado como um dos fundamentos do Bitcoin.
Mais de 1.300 BTC teriam sido roubados
Segundo a fonte, mais de 1.300 BTC foram retirados de milhares de endereços associados aos dispositivos afetados.
As perdas estimadas chegam a aproximadamente US$ 83 milhões.
Os roubos ocorreram em várias etapas. Pesquisadores de blockchain continuaram identificando novas movimentações dias depois da divulgação pública da vulnerabilidade.
Alex Thorn, chefe de pesquisa da Galaxy Digital, mencionou uma possível quarta onda de roubos até o domingo seguinte à revelação.
A escala mostra que uma falha introduzida em um produto de autocustódia pode permanecer escondida durante anos antes de ser explorada em grande volume.
Vulnerabilidade foi introduzida em 2021
A falha teria sido criada em 2021 no processo utilizado pela Coldcard para gerar as seeds das carteiras.
Uma seed, ou frase de recuperação, permite recriar as chaves privadas que controlam os bitcoins de um usuário.
O problema reduziu a entropia usada na criação dessas frases. Entropia representa a quantidade de aleatoriedade utilizada durante a geração de uma chave.
Quando esse nível é insuficiente, o número de combinações possíveis diminui. Um invasor pode testar essas combinações até encontrar uma seed válida.
No caso da Coldcard, os criminosos teriam conseguido realizar ataques de força bruta sem precisar ter contato físico com os aparelhos.
Isso torna o problema particularmente grave. Uma carteira física deveria proteger as chaves mesmo quando o computador do usuário é comprometido. Nesse caso, a fraqueza estava na criação das próprias chaves.
“Não confie, verifique” é difícil de aplicar
Jameson Lopp considera o princípio válido, mas entende que não é realista esperar que a maioria dos usuários verifique pessoalmente todos os componentes técnicos.
Segundo ele, auditar softwares e hardwares complexos não é viável para 99,9% da população.
A maioria das pessoas não possui conhecimento ou tempo para examinar o código-fonte, avaliar a geração aleatória, analisar o firmware e testar o funcionamento de uma carteira física.
Por isso, elas acabam dependendo de terceiros.
Esses terceiros podem ser fabricantes, desenvolvedores, pesquisadores de segurança ou membros reconhecidos da comunidade.
O usuário não elimina totalmente a confiança. Ele a transfere para pessoas ou organizações que acredita terem realizado as verificações necessárias.
Autocustódia não elimina toda forma de confiança
Um dos principais argumentos em favor do Bitcoin é a possibilidade de controlar diretamente os ativos sem uma instituição financeira.
Mesmo assim, possuir as próprias chaves não significa dominar todas as camadas tecnológicas utilizadas.
O usuário normalmente precisa confiar no fabricante do aparelho, nos desenvolvedores do firmware e nos pesquisadores que procuram vulnerabilidades.
Lopp afirma que o objetivo deveria ser evitar a confiança em um único componente.
Uma pessoa não deveria depender inteiramente de um único fabricante, software ou método de recuperação.
A segurança passa a depender da redução e da diversificação das suposições de confiança.
Incidente não representa o fim da autocustódia
Zach Herbert, cofundador e diretor-executivo da Foundation, também rejeitou a ideia de que a falha da Coldcard prove o fracasso da autocustódia.
Segundo ele, concluir que a autocustódia morreu seria perigoso.
O incidente deveria incentivar o setor a reforçar suas melhores práticas de segurança.
Essa diferença importa. O problema não atinge necessariamente o princípio de que usuários podem controlar diretamente seus bitcoins.
Ele envolve uma implementação defeituosa em um produto específico.
A resposta adequada seria melhorar projetos, auditorias e procedimentos de proteção, em vez de abandonar completamente a autocustódia.
Autocustódia exige responsabilidade real
Lopp destaca que a autocustódia é adequada para qualquer pessoa disposta a aceitar as responsabilidades envolvidas.
Essas obrigações incluem proteger a seed, acompanhar alertas, instalar atualizações e manter um plano de recuperação.
Elas também envolvem a escolha de hardware e software.
Um usuário que controla as próprias chaves não pode contar com um banco para cancelar uma transferência fraudulenta.
Depois que os bitcoins são enviados e a transação é confirmada, a recuperação normalmente não é possível.
A autonomia da autocustódia vem acompanhada de um risco operacional maior para o proprietário.
Diversificação pode reduzir o impacto de falhas
A principal lição apresentada por Lopp é que nenhum componente deve ser tratado como perfeitamente confiável.
Uma estrutura mais resistente pode evitar que toda a segurança fique concentrada em um único aparelho ou fornecedor.
Configurações com várias chaves ou diferentes dispositivos podem reduzir o impacto de uma falha isolada.
A fonte, porém, não oferece uma recomendação técnica completa nem uma solução específica.
Por isso, nenhuma abordagem deve ser apresentada como proteção garantida.
O princípio geral é que depender de um único produto aumenta as consequências de uma vulnerabilidade.
Inteligência artificial muda a segurança das carteiras
Lopp acredita que os avanços em inteligência artificial provavelmente aceleraram a descoberta da falha da Coldcard.
Grandes modelos de linguagem conseguem analisar rapidamente grandes volumes de código e identificar anomalias difíceis de encontrar manualmente.
Isso reduz o custo e o tempo necessário para revisar softwares complexos.
A mudança pode ajudar os defensores, que usam IA para melhorar auditorias e identificar erros antes de uma exploração.
Mas também beneficia os atacantes.
Criminosos podem utilizar as mesmas ferramentas para buscar vulnerabilidades em softwares públicos e preparar ataques com maior velocidade.
Uma corrida entre atacantes e defensores
Lopp descreve um ambiente no qual os dois lados se beneficiam das mesmas tecnologias.
Defensores podem analisar mais código e encontrar problemas mais cedo.
Atacantes também podem automatizar a busca por falhas e mirar produtos amplamente utilizados.
A segurança se transforma em uma corrida na qual a velocidade de descoberta e correção se torna cada vez mais importante.
Rodolfo Novak, diretor-executivo da CoinKite, também relacionou o incidente ao novo cenário criado pela IA.
Depois de assumir a responsabilidade pelo erro no firmware, ele descreveu o caso como uma realidade difícil do novo paradigma da inteligência artificial.
Segundo essa visão, revisões assistidas por IA conseguem encontrar vulnerabilidades antigas mais rapidamente do que pesquisadores experientes.
Código público pode ficar mais fácil de explorar
A transparência do código permite que pesquisadores independentes examinem softwares e relatem problemas.
Ela também permite que atacantes usem inteligência artificial para analisar as mesmas informações.
O problema não é necessariamente a publicação do código. O risco aparece quando criminosos descobrem uma vulnerabilidade antes das equipes responsáveis pela correção.
Quando a falha envolve a geração de chaves, o intervalo entre a descoberta e a proteção dos usuários se torna decisivo.
Atacantes podem começar a mover os fundos assim que conseguem reconstruir as seeds vulneráveis.
Falhas em carteiras já aconteceram antes
Lopp lembra que incidentes graves envolvendo carteiras físicas não são inéditos.
Ele estima que uma dúzia de casos críticos semelhantes já tenha ocorrido e espera que outros apareçam no futuro.
Essa visão mostra que nenhum sistema de hardware ou software pode ser considerado permanentemente seguro.
Cada incidente pode, porém, elevar os padrões do setor.
Fabricantes corrigem processos, pesquisadores aperfeiçoam métodos e usuários se tornam mais atentos.
A evolução da segurança normalmente depende da análise dos erros anteriores.
Crise de confiança para fabricantes
O problema da Coldcard pode afetar a confiança depositada em fabricantes de carteiras físicas.
Usuários compram esses dispositivos porque acreditam que eles oferecem proteção superior contra o roubo de chaves.
Uma falha na geração da seed atinge o centro dessa promessa.
A fonte não informa quantas pessoas continuarão utilizando a Coldcard nem qual será o impacto comercial para a CoinKite.
Mesmo assim, o caso indica que fabricantes poderão ser pressionados a apresentar maior transparência sobre auditorias, geração de aleatoriedade e medidas corretivas.
O que usuários devem acompanhar
Usuários precisam acompanhar os avisos oficiais relacionados aos modelos e versões de firmware afetados.
Também devem verificar se suas seeds foram criadas durante o período vulnerável.
Uma simples atualização de firmware pode não proteger uma seed que já foi gerada com entropia insuficiente.
A fonte não apresenta uma orientação completa de migração. Pessoas afetadas devem seguir apenas as instruções oficiais e evitar contatos não solicitados oferecendo ajuda.
O incidente também pode atrair golpes de phishing direcionados a usuários preocupados com seus fundos.
O que o setor precisa aprender
A falha mostra que a autocustódia não pode depender apenas de um lema.
Ela exige práticas concretas, auditorias independentes e reconhecimento das limitações humanas.
A maioria dos usuários nunca examinará pessoalmente cada linha de código ou componente eletrônico.
A indústria precisa desenvolver sistemas nos quais vários participantes consigam detectar riscos e nos quais uma única falha não comprometa todos os fundos.
A inteligência artificial torna essa necessidade mais urgente porque acelera tanto a defesa quanto a exploração maliciosa.
Conclusão
A vulnerabilidade da Coldcard teria permitido o roubo de mais de 1.300 BTC, avaliados em cerca de US$ 83 milhões.
O incidente mostra os limites práticos do princípio “não confie, verifique”, já que a maioria dos usuários não consegue auditar sistemas complexos por conta própria.
Jameson Lopp e Zach Herbert ainda defendem a validade da autocustódia. A principal lição é evitar a dependência de um único produto, reconhecer os pontos de confiança e fortalecer as práticas de segurança.
Ponto-chave final
A falha da Coldcard não prova que a autocustódia fracassou. Ela mostra que controlar as próprias chaves não elimina totalmente a confiança e que a segurança precisa de várias camadas, múltiplas verificações e melhor preparação para vulnerabilidades aceleradas pela inteligência artificial.

