Notícias Diárias

Milho cai após relatório WASDE mostrar oferta maior na América do Sul

Futuros de milho, soja e trigo caem após relatório WASDE do USDA

Os futuros do milho recuaram fortemente na quinta-feira em Chicago após a divulgação do relatório WASDE de junho do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. O mercado reagiu a previsões mais altas para as safras de milho no Brasil e na Argentina, enquanto as lavouras americanas contam com condições climáticas consideradas amplamente favoráveis neste início de verão.

O contrato de milho para entrega em julho caiu 1,9% e fechou a US$ 4,11 por bushel na Chicago Board of Trade. A soja para entrega em julho recuou 0,7%, a US$ 11,15 3/4 por bushel, enquanto o trigo para entrega em julho cedeu 0,2%, a US$ 5,86 1/4 por bushel.

A pressão veio principalmente do fortalecimento das perspectivas de oferta global. O relatório WASDE mostrou produção mais alta na América do Sul, especialmente para o milho brasileiro e a soja argentina. Essas revisões superaram as expectativas dos analistas consultados pelo The Wall Street Journal, pressionando os contratos futuros.

Ao mesmo tempo, o clima nos Estados Unidos não oferece um suporte altista claro. As condições na Corn Belt continuam consideradas favoráveis, com poucos sinais imediatos de estresse para as lavouras. Para os traders, essa combinação — mais oferta sul-americana e clima americano sem ameaça — reduz a urgência de incorporar prêmio de risco aos preços.

Relatório WASDE adiciona colchão de oferta

O relatório WASDE é um dos eventos mais acompanhados pelos mercados agrícolas. Ele atualiza estimativas de produção, demanda, exportações, estoques e equilíbrio global para as principais commodities agrícolas. Para milho, soja e trigo, revisões podem rapidamente alterar expectativas de preço.

Desta vez, a principal mensagem do relatório é clara: a oferta mundial parece menos apertada. Previsões mais altas para a América do Sul dão ao mercado um colchão adicional. Quando Brasil ou Argentina produzem mais do que o esperado, a concorrência nas exportações aumenta, o que pode reduzir a demanda direcionada aos Estados Unidos.

O milho foi particularmente afetado porque as projeções de produção do Brasil e da Argentina foram elevadas. O Brasil é um ator importante no comércio global de milho, e uma safra maior pode pesar sobre os preços internacionais. Compradores globais passam a ter mais opções, o que limita o poder de preço dos exportadores americanos.

Para a soja, a melhora nas perspectivas de produção na Argentina também adiciona pressão baixista. A Argentina exerce papel central nos produtos processados, como farelo e óleo de soja. Uma colheita mais abundante pode alterar o equilíbrio global do complexo soja.

Clima americano limita interesse comprador

As condições climáticas nos Estados Unidos continuam sendo fator determinante. No início da temporada de crescimento, traders acompanham chuva, temperatura, umidade do solo e risco de seca. Por enquanto, os sinais são favoráveis às lavouras americanas.

Doug Bergman, da RCM Alternatives, resumiu o sentimento do mercado ao afirmar que, com o clima americano sem ameaça, não há muitos elementos capazes de mudar a tendência atual. Esse comentário reflete uma realidade simples: sem uma ameaça climática visível, fica difícil para os preços do milho ou da soja construírem uma alta duradoura.

A Corn Belt conta com condições que apoiam a germinação e o desenvolvimento inicial das lavouras. Chuvas recentes e ausência de calor extremo prolongado reduzem preocupações sobre o potencial de rendimento. Enquanto essa situação persistir, vendedores mantêm vantagem psicológica.

Isso não significa que o risco climático desapareceu. O verão ainda é longo, e os períodos críticos para milho e soja ainda não passaram completamente. Mas o mercado geralmente não paga um prêmio climático antes de ver provas mais concretas de estresse.

Milho sofre a maior pressão

O milho foi o principal perdedor da sessão. A queda de 1,9% reflete ao mesmo tempo o relatório WASDE, as boas condições das lavouras nos Estados Unidos e a ausência de catalisador altista imediato.

O mercado de milho depende fortemente de várias variáveis: produtividade americana, produção sul-americana, demanda de exportação, consumo para etanol, alimentação animal e estoques finais. Quando vários desses elementos apontam para uma oferta mais confortável, os preços podem se enfraquecer rapidamente.

A alta das previsões para Brasil e Argentina reduz a percepção de escassez. Exportadores americanos precisam lidar com concorrência maior, especialmente se os preços sul-americanos continuarem atraentes para compradores internacionais.

O nível de US$ 4,11 por bushel mostra que o mercado permanece perto de zonas fracas. Se o clima americano continuar favorável e as exportações não compensarem a oferta mundial, o milho pode seguir pressionado.

Soja recua apesar de vendas externas sólidas

A soja também terminou em baixa, mas de forma menos intensa que o milho. O contrato de julho perdeu 0,7%, a US$ 11,15 3/4 por bushel. A pressão veio sobretudo da revisão das perspectivas sul-americanas, especialmente na Argentina.

Ainda assim, as vendas de exportação americanas não foram fracas. O relatório semanal do USDA mostrou vendas de milho e trigo acima das expectativas dos analistas. A soja não foi o principal destaque do relatório, mas a demanda geral por grãos americanos não estava totalmente ausente.

O problema para a soja é que o mercado olha mais para o equilíbrio global. Uma safra argentina melhor pode pesar sobre os derivados da soja e sobre a concorrência internacional. Mesmo que os Estados Unidos encontrem demanda, compradores globais podem se voltar para a América do Sul se os preços e a disponibilidade forem favoráveis.

A soja também continua influenciada por mercados de óleo vegetal, biodiesel, demanda chinesa e dólar. Mas, na quinta-feira, o relatório WASDE dominou a sessão.

Trigo cai levemente apesar de exportações melhores

O trigo recuou 0,2%, a US$ 5,86 1/4 por bushel. A queda foi mais moderada que a do milho, porque o trigo mantém seus próprios fatores de suporte, incluindo preocupações de produção em algumas regiões e vendas externas melhores do que o esperado.

O relatório semanal do USDA mostrou vendas de trigo de 666.300 toneladas para a campanha 2026/27, com 298.600 toneladas adicionais transferidas da campanha 2025/26. Esses números superaram as expectativas do mercado.

No entanto, as boas vendas não foram suficientes para inverter a tendência geral. O mercado de grãos como um todo foi enfraquecido pelo relatório WASDE e pela ideia de uma oferta global mais confortável. O trigo também segue influenciado pela concorrência internacional, especialmente no Mar Negro, além de moedas e condições de colheita.

A reação moderada do trigo mostra que o mercado não recebeu sinal forte o bastante para romper com a pressão geral sobre os cereais.

El Niño pode favorecer lavouras americanas

Outro elemento importante veio do National Weather Service. Seu Climate Prediction Center informou que o clima global mudou oficialmente para um sistema El Niño. Essa evolução pode ter consequências importantes para as lavouras americanas.

Para as culturas em linha nos Estados Unidos, o El Niño pode, em alguns casos, trazer alívio a áreas afetadas pela seca, especialmente nas planícies do sul. Por outro lado, alguns estados mais ao norte podem registrar condições mais quentes e secas.

Por enquanto, o mercado interpreta essa mudança como relativamente favorável às lavouras americanas. Gary Sandlund, da Futures International, avaliou que o clima nos Estados Unidos está quase ideal. Essa percepção reforça a pressão sobre os preços, pois reduz o risco de choque de produtividade no curto prazo.

No entanto, o El Niño não produz os mesmos efeitos em todos os lugares nem em todos os momentos. Traders precisarão acompanhar a evolução dos modelos climáticos nas próximas semanas, especialmente quando o milho entrar em suas fases mais sensíveis.

Declarações de Trump sobre o Irã afetam o sentimento

As declarações de Donald Trump sobre a guerra no Irã também influenciaram o sentimento do mercado, embora seu impacto direto sobre os grãos seja mais limitado do que sobre energia. O presidente americano primeiro ameaçou atingir o Irã “muito duramente”, antes de indicar mais tarde que os ataques haviam sido cancelados por causa de um acordo próximo.

Essa sequência rápida adicionou incerteza ao mercado. Tensões no Oriente Médio podem afetar preços de energia, custos de transporte, moedas e apetite por risco. Para os cereais, o impacto costuma ser indireto, mas pode alterar o comportamento de fundos e traders no curto prazo.

Um acordo com o Irã poderia reduzir tensões energéticas e pesar sobre alguns custos, enquanto uma escalada militar poderia apoiar o petróleo e certos mercados ligados a biocombustíveis. Na quinta-feira, a confusão em torno dos anúncios contribuiu principalmente para um sentimento cauteloso.

New World screwworm entra nas previsões do gado

O relatório WASDE também mencionou um elemento sanitário que afeta o mercado pecuário: o New World screwworm. O serviço de inspeção sanitária animal e vegetal do USDA agora relata sete casos em animais, seis deles no Texas, alguns chegando ao norte até o condado de Gillespie, perto de Austin.

O USDA reduziu sua perspectiva de produção de carne bovina para 2026 levando em conta possíveis interrupções causadas pelo parasita. Mesmo que esse tema envolva primeiro o gado, também pode interessar aos mercados de grãos pelo canal da alimentação animal.

Uma queda na produção de carne bovina pode modificar necessidades de ração, estrutura dos rebanhos e alguns fluxos de demanda por milho e outros componentes de alimentação. O impacto imediato sobre os futuros de grãos continua limitado, mas o tema pode se tornar mais importante se os casos aumentarem.

Exportações americanas continuam sendo ponto positivo

Apesar da queda dos preços, as vendas de exportação americanas ofereceram um elemento de suporte. Na semana encerrada em 4 de junho, as vendas de milho nas campanhas 2025/26 e 2026/27 totalizaram 1,93 milhão de toneladas, cerca de 130 mil toneladas acima do topo das estimativas dos analistas.

As vendas de trigo também superaram expectativas, com 666.300 toneladas para 2026/27 e 298.600 toneladas transferidas de 2025/26. Esses números mostram que a demanda externa por alguns cereais americanos permanece ativa.

Ainda assim, exportações sólidas não foram suficientes para compensar o efeito do relatório WASDE. Quando o mercado recebe, ao mesmo tempo, sinais de oferta mais abundante na América do Sul e clima americano favorável, os dados de demanda precisam ser muito fortes para inverter a tendência.

Nas próximas sessões, inspeções de exportação e vendas semanais continuarão importantes. Se seguirem acima das expectativas, podem limitar a queda. Mas provavelmente será necessária uma deterioração climática ou uma surpresa altista na demanda para relançar uma alta verdadeira.

O que traders devem acompanhar

O primeiro elemento a acompanhar é o clima americano. Enquanto as condições continuarem favoráveis na Corn Belt, milho e soja terão dificuldade para construir uma alta duradoura.

O segundo fator é a evolução das previsões sul-americanas. Estimativas mais altas para Brasil e Argentina reforçam a concorrência mundial e pressionam preços americanos.

O terceiro ponto é o relatório Commitment of Traders da CFTC, previsto para sexta-feira. Ele permitirá observar como fundos especulativos estão posicionados nos grãos.

O quarto elemento é o relatório semanal de inspeções de exportação, esperado para segunda-feira. Ele dará um sinal adicional sobre a demanda real por cereais americanos.

Por fim, o relatório Crop Progress de segunda-feira será essencial para medir o estado das lavouras americanas. Se as classificações permanecerem sólidas, a pressão pode continuar. Se se deteriorarem, o mercado pode reintroduzir um prêmio climático.

Conclusão

Os futuros de milho, soja e trigo recuaram na quinta-feira após um relatório WASDE considerado favorável à oferta. O milho foi o mais afetado, perdendo 1,9% e fechando a US$ 4,11 por bushel, enquanto o USDA elevou suas previsões para as safras brasileira e argentina e o clima americano permanece favorável.

Soja e trigo também caíram, apesar de vendas externas sólidas para milho e trigo. O mercado continua dominado pela ideia de um colchão de oferta mais confortável e pela ausência de ameaça climática imediata nos Estados Unidos.

Ponto final

O relatório WASDE reforçou a pressão baixista sobre os grãos ao adicionar oferta sul-americana no momento em que as lavouras americanas contam com clima quase ideal. Para inverter a tendência, o mercado precisará de mudança climática, demanda exportadora mais forte ou posicionamento especulativo capaz de provocar um rebote técnico.

Você também pode gostar

Notícias Diárias

BNB volta a superar US$ 1.100 após perdão presidencial concedido a Changpeng Zhao

BNB dispara acima de US$ 1.100 após Donald Trump conceder perdão presidencial a Changpeng Zhao Um movimento político que reacende
Notícias Diárias

Intel dispara 8% após resultados surpreendentes e novo impulso estratégico

Um forte sinal de que a virada da Intel está ganhando ritmo A Intel surpreendeu Wall Street ao divulgar resultados