A China está acelerando sua estratégia econômica na África ao eliminar tarifas sobre produtos vindos de 53 dos 54 países africanos. A decisão, em vigor desde 1º de maio, ocorre em um momento em que os Estados Unidos endureceram sua política comercial sob a administração Trump, tornando mais difícil o acesso de muitos países africanos ao mercado americano.
A nova política chinesa cobre uma ampla variedade de produtos, de vinho a sementes de gergelim, passando por lã, café, chá, nozes de macadâmia e abacates. Apenas Eswatini fica fora do programa, por manter relações diplomáticas com Taiwan.
Para Pequim, o objetivo vai além do comércio. Trata-se de reforçar sua influência sobre um continente com mais de um bilhão de habitantes, rico em matérias-primas, recursos agrícolas e minerais estratégicos. A China já é o maior parceiro comercial da África, mas essa iniciativa permite consolidar sua imagem de parceira estável, previsível e favorável aos países em desenvolvimento.
Uma decisão comercial com forte peso político
A eliminação das tarifas é, antes de tudo, uma decisão econômica. Ela permite que exportadores africanos acessem com mais facilidade o mercado chinês e pode melhorar a competitividade de certos produtos agrícolas ou industriais.
Mas seu peso político é igualmente relevante. Em um momento em que Washington adota uma postura mais protecionista, Pequim se apresenta como parceira aberta ao comércio com o Sul Global. Essa imagem é especialmente estratégica na África, onde muitos governos buscam diversificar seus mercados e reduzir a dependência de economias ocidentais.
Para diversos analistas, a decisão chinesa é diplomática e comercialmente inteligente. Ela contrasta com a abordagem americana, vista como mais imprevisível, mais transacional e marcada por tarifas. Assim, Pequim reforça seu discurso de que entende melhor as necessidades das economias emergentes.
O contraste com a política comercial americana
A decisão chinesa chega em um momento de tensão nas relações comerciais entre vários países africanos e os Estados Unidos. A administração Trump impôs ou ameaçou impor tarifas elevadas a várias economias africanas, incluindo África do Sul, República Democrática do Congo e Lesoto.
A África do Sul, maior economia do continente, e a RDC, rica em minerais, foram atingidas por tarifas de 30% e 15%, respectivamente. Tarifas generalizadas de 10% também foram anunciadas sobre todos os países, embora a legalidade de algumas medidas continue sendo questionada nos tribunais.
O Lesoto, país altamente dependente de sua indústria têxtil, foi particularmente afetado pela ameaça de tarifas elevadas. Essa pressão aumentou as dúvidas sobre o futuro do African Growth and Opportunity Act, uma lei americana que concede acesso sem tarifas ao mercado dos EUA para alguns produtos da África subsaariana.
Nesse contexto, a China aparece como uma alternativa comercial mais atraente para alguns governos africanos.
Para muitos países africanos, o acesso ao mercado chinês representa uma oportunidade. A China é um enorme mercado consumidor, com forte demanda por produtos agrícolas, matérias-primas, metais, alimentos e algumas mercadorias especializadas.
O Quênia, por exemplo, espera usar esse acordo para reduzir seu déficit comercial com a China, estimado em cerca de US$4 bilhões. Produtos como café, chá, abacates e nozes de macadâmia podem ganhar competitividade com o acesso sem tarifas.
Essa possibilidade é importante para economias africanas que buscam aumentar exportações, apoiar agricultores e desenvolver cadeias de valor mais fortes.
No entanto, acesso sem tarifas não garante automaticamente um grande aumento nas exportações. Os países africanos ainda precisarão cumprir exigências sanitárias, logísticas, regulatórias e de qualidade do mercado chinês.
Minerais críticos no centro da estratégia chinesa
Um dos pontos mais importantes envolve os minerais críticos. A África possui grandes reservas de cobalto, cobre, coltan, lítio, manganês e outros recursos necessários para transição energética, baterias, veículos elétricos, infraestrutura digital e tecnologias militares.
Ao eliminar tarifas, Pequim pode fortalecer suas relações com países produtores de minerais estratégicos. Isso pode ajudar a China a proteger suas cadeias de suprimento, especialmente em um contexto de rivalidade tecnológica e industrial com os Estados Unidos.
A RDC, por exemplo, é essencial para o cobalto. A Zâmbia é importante para o cobre. Outros países africanos têm papel crescente em metais ligados a baterias e infraestrutura energética.
A iniciativa tarifária chinesa pode, portanto, ser interpretada como uma forma de consolidar o acesso de Pequim aos recursos de que sua indústria precisa para continuar competitiva.
Oportunidade para infraestrutura e logística
A política chinesa também pode abrir espaço para novos projetos de infraestrutura, logística e transformação local. Muitos países africanos precisam de portos, estradas, ferrovias, zonas industriais, capacidade de armazenamento e sistemas de transporte mais eficientes para exportar mais.
A China já financiou muitos projetos de infraestrutura na África nas últimas duas décadas. Entre 2000 e 2024, os compromissos de empréstimos chineses ao continente chegaram a cerca de US$181 bilhões, segundo pesquisadores da Boston University.
Ainda assim, esse modelo também recebeu críticas. Alguns governos e observadores denunciaram condições de financiamento pesadas, dependência excessiva da dívida chinesa ou qualidade irregular de certos projetos.
A nova abordagem tarifária pode representar uma evolução. Em vez de apostar apenas em empréstimos, Pequim pode usar o acesso ao mercado como ferramenta de influência econômica.
Limites: barreiras não tarifárias e capacidade local
Apesar do potencial, a eliminação de tarifas não resolve todos os problemas. Exportadores africanos ainda enfrentam várias barreiras não tarifárias.
As exigências fitossanitárias chinesas podem ser rigorosas, especialmente para produtos agrícolas. Normas de qualidade, certificações, controles sanitários e procedimentos administrativos podem limitar o acesso real ao mercado.
A infraestrutura também continua sendo um grande obstáculo. Em vários países africanos, estradas, portos, armazéns, cadeias de frio e ferrovias não são suficientemente desenvolvidos para sustentar forte aumento das exportações.
Custos de produção elevados, dificuldade de acesso a financiamento, cortes de energia e gargalos logísticos também podem reduzir a competitividade das empresas africanas.
Ou seja, acesso tarifário é uma condição útil, mas insuficiente.
O risco de permanecer no modelo de matérias-primas
Um dos grandes desafios é que a relação comercial entre África e China ainda é dominada por um padrão clássico: a África exporta matérias-primas, enquanto a China exporta produtos acabados.
Essa estrutura limita a criação de valor no continente africano. Se os países africanos exportarem principalmente minério bruto, produtos agrícolas não processados ou matérias-primas, os ganhos industriais seguirão limitados.
Para aproveitar plenamente o acesso ao mercado chinês, os países africanos precisarão desenvolver a transformação local. Isso significa transformar cacau em produtos de chocolate, algodão em têxteis, minerais em componentes industriais ou produtos agrícolas em alimentos de maior valor agregado.
Sem essa evolução, os benefícios da política chinesa podem ficar concentrados em exportações de produtos brutos.
O caso do Lesoto mostra os desafios
O Lesoto já se beneficia de acesso sem tarifas ao mercado chinês desde o fim de 2024, por ser um dos países menos desenvolvidos. Mas a experiência mostra que abertura comercial não basta.
Para aproveitar plenamente essa oportunidade, o país precisa investir em capacidade produtiva, transformar mais bens localmente, melhorar sua logística, apoiar exportadores e desenvolver indústrias competitivas.
Esse diagnóstico vale para muitos outros países africanos. O acesso ao mercado chinês pode se tornar motor de crescimento, mas apenas se governos e empresas forem capazes de aumentar a produção, melhorar a qualidade e cumprir as exigências de importação.
Caso contrário, os benefícios continuarão limitados a poucos setores e exportadores.
Uma disputa de influência entre Pequim e Washington
A decisão chinesa faz parte de uma competição mais ampla entre Pequim e Washington por influência econômica e política na África.
Os Estados Unidos usaram por muito tempo ajuda ao desenvolvimento, relações diplomáticas, programas de saúde, segurança e acesso comercial para manter presença no continente. Mas o fechamento da USAID pela administração Trump, cargos de embaixadores vagos e a incerteza sobre o AGOA reduziram a visibilidade americana.
A China, por outro lado, busca se apresentar como parceira constante. Ela destaca sua experiência de desenvolvimento, seu papel em infraestrutura e seu discurso de solidariedade com os países do Sul Global.
A eliminação das tarifas reforça esse posicionamento. Ela permite que Pequim diga aos países africanos: enquanto outros fecham seus mercados, a China os abre.
O que os países africanos podem ganhar
Se for bem utilizada, essa política pode ajudar as economias africanas a diversificar suas exportações. Produtos agrícolas de qualidade, matérias-primas estratégicas, bens processados e alguns produtos manufaturados podem encontrar novas oportunidades na China.
Os países que investirem em normas, certificação, transformação local e logística terão melhores chances de se beneficiar.
Essa iniciativa também pode incentivar alguns governos a repensar sua estratégia comercial. Em vez de depender de um único mercado, países africanos podem buscar equilibrar suas relações entre China, Estados Unidos, Europa, Oriente Médio e mercados intra-africanos.
A decisão da China de eliminar tarifas sobre produtos de 53 países africanos é uma iniciativa comercial importante, mas também um movimento geopolítico calculado. Pequim busca ampliar sua influência na África em um momento em que Washington adota uma postura mais protecionista e incerta.
Essa política pode oferecer oportunidades reais aos exportadores africanos, especialmente em agricultura, minerais críticos e certos produtos processados. Mas os benefícios dependerão da capacidade dos países africanos de superar barreiras não tarifárias, melhorar sua logística, desenvolver produção e agregar valor às exportações.
Para a África, o desafio não é apenas vender mais para a China. É transformar essa abertura em crescimento industrial, empregos e soberania econômica. Sem isso, o risco é o continente continuar no papel tradicional de fornecedor de matérias-primas, enquanto o valor agregado segue sendo capturado em outros lugares.

