O setor indiano de gemas e joias encerrou o ano fiscal de forma difícil, com uma forte queda nas exportações em março de 2026, à medida que a demanda global fraca, as tensões geopolíticas no Oeste Asiático e a incerteza econômica mais ampla pressionaram um dos segmentos exportadores mais importantes do país. Ao mesmo tempo, as importações seguiram o caminho oposto, avançando de forma relevante à medida que empresas do setor aumentaram as compras de matérias-primas, como ouro e diamantes, em antecipação a uma futura recuperação da demanda.
De acordo com os dados oficiais de comércio, as exportações indianas de gemas e joias caíram 35,23% na comparação anual em março de 2026, para US$ 1.783,67 milhões, o equivalente a ₹16.597,20 crore. Essa contração mostra como as pressões externas ainda pesam fortemente sobre o consumo internacional de bens de luxo e discricionários, especialmente em categorias como diamantes e joias de ouro, onde os compradores ficaram mais cautelosos.
As importações, por sua vez, subiram 16,66% no mesmo mês, para US$ 2.313,97 milhões, ou ₹21.565,46 crore. Esse aumento sugere que, mesmo diante da fraqueza das exportações no curto prazo, muitas empresas do setor estão se preparando para condições melhores mais adiante, recompondo estoques e garantindo matérias-primas enquanto ainda há oferta disponível.
No acumulado do ano fiscal entre abril de 2025 e março de 2026, as exportações totais de gemas e joias recuaram 3,32%, para US$ 27.717,40 milhões. Em termos de rupia, porém, houve um avanço modesto de 0,93%, ajudado pela depreciação cambial. Já as importações cresceram 16,99%, para US$ 22.830,18 milhões.
Esses números mostram um quadro misto, mas bastante revelador. O setor claramente enfrenta pressão por causa do ambiente global, mas não está se comportando de forma puramente defensiva. Em vez disso, as empresas parecem absorver a fraqueza de curto prazo enquanto se posicionam para uma possível melhora mais à frente.
Março escancarou a vulnerabilidade do setor aos choques globais
A queda acentuada de março mostra o quanto o comércio indiano de gemas e joias continua sensível às mudanças da economia global. Esse setor depende fortemente da demanda externa, especialmente de mercados onde joias e diamantes estão ligados à confiança do consumidor, ciclos de presentes, casamentos e gastos discricionários.
Quando a incerteza global aumenta, esse tipo de demanda costuma enfraquecer rapidamente.
Foi exatamente isso que parece ter acontecido em março. As tensões geopolíticas em West Asia, os preços mais altos do petróleo, o sentimento mais fraco do consumidor e a cautela macroeconômica mais ampla criaram um ambiente em que compradores internacionais reduziram o ritmo. Alguns cortaram novos pedidos. Outros optaram por liquidar estoques já existentes em vez de fazer novas compras.
Isso importa porque o setor de gemas e joias não é movido apenas por capacidade produtiva. Ele depende muito do comportamento dos varejistas, dos ciclos de estoque dos atacadistas e da demanda final do consumidor nos mercados internacionais. Se os compradores lá fora ficam incertos, os pedidos podem diminuir rapidamente, mesmo quando a cadeia produtiva doméstica continua operando.
No ano cheio, a fraqueza foi ampla, mas desigual entre segmentos
No acumulado do ano, a queda total das exportações foi mais moderada do que o choque de março pode sugerir. Um recuo de 3,32% em FY26 mostra um setor enfraquecido, mas não em colapso. Essa relativa resiliência veio do bom desempenho de algumas categorias e de estabilidade maior em outras.
Ainda assim, a entidade do setor deixou claro que a performance exportadora permaneceu fraca ao longo de todo o ano. Consumo global morno, petróleo mais caro e disrupções de supply chain ligadas à geopolítica pesaram de forma contínua. Além disso, compradores estrangeiros reduziram encomendas e liquidaram estoques antigos diante da instabilidade macroeconômica.
Isso quer dizer que a fraqueza não foi apenas um evento isolado de março. O mês foi especialmente ruim, mas a pressão já vinha se acumulando há bastante tempo.
Diamantes mostraram fraqueza, mas também reposição de estoques
O segmento de diamantes entregou um dos quadros mais mistos do relatório.
As exportações de diamantes lapidados e polidos caíram 27,48% na comparação anual em março de 2026, para US$ 838,75 milhões. A queda reflete demanda mais fraca nos principais mercados, compras mais cautelosas e correções de preços. No ano fiscal completo, esse segmento recuou 8,52%, para US$ 12.159,83 milhões.
Essa parte dos dados conta uma história clara no lado da venda. A demanda segue fraca, os preços continuam pressionados e os compradores não estão dispostos a assumir compromissos maiores.
Mas do lado das importações, o cenário foi bem diferente. As importações de diamantes lapidados e polidos dispararam 312,15% em março e cresceram 28,32% no acumulado do ano. Um salto desse tamanho sugere com força uma recomposição de estoques. Também indica que parte do setor enxerga oportunidade suficiente no médio prazo para voltar a abastecer estoques, especialmente quando a disponibilidade de oferta melhora.
Enquanto isso, as importações de diamantes brutos caíram 2,67% no ano, para US$ 10.478,83 milhões, refletindo demanda mais fraca por lapidação e otimização de estoques por parte dos fabricantes.
No conjunto, o segmento de diamantes parece um mercado em transição. A demanda de exportação continua fraca, mas parte da indústria já se posiciona para um cenário melhor à frente.
Diamantes cultivados em laboratório também seguiram pressionados
A fraqueza não ficou restrita aos diamantes tradicionais. As exportações de diamantes lapidados cultivados em laboratório também caíram 27,56% em março de 2026, atingidas por demanda fraca no varejo, pressão sobre os preços e ajustes de estoques em mercados globais.
Isso chama atenção porque os diamantes de laboratório já foram vistos como uma das áreas mais dinâmicas do setor. Mas até segmentos associados a acessibilidade ou a tendências mais recentes de consumo não ficaram imunes quando a demanda global do varejo esfriou e os compradores ficaram mais sensíveis a preço.
Nesse caso, preços mais baixos e correções de estoque parecem ter pesado mais do que qualquer impulso estrutural de demanda. Isso sugere que a desaceleração foi ampla e não limitada apenas às categorias mais tradicionais.
Joias de ouro ficaram sob pressão especialmente forte
Se os diamantes tiveram um mês ruim, as joias de ouro tiveram um mês ainda mais duro.
As exportações de joias de ouro caíram 48,11% em março de 2026, para US$ 655,92 milhões, afetadas pelos preços elevados do ouro, pela demanda sazonal mais fraca e pela redução das encomendas internacionais. Foi uma contração severa, que mostra como produtos ligados ao ouro sofrem mais quando os preços estão altos e o consumidor global fica cauteloso.
No ano cheio, porém, o quadro foi mais estável. As exportações de joias de ouro recuaram apenas 0,03%, para US$ 11.364,32 milhões, sugerindo que a fraqueza em dólar foi parcialmente compensada pelo desempenho em rupia.
Dentro do segmento, a diferença entre categorias foi bem marcante. As exportações de joias de ouro simples despencaram 70,65% em março e caíram 7,42% no ano, mostrando pressão clara de preços altos e compras mais cautelosas. Já as exportações de joias de ouro com pedras recuaram 19,62% em março, mas ainda subiram 6,27% no acumulado do ano, sustentadas por uma demanda mais forte em períodos festivos e de casamentos em alguns mercados internacionais.
Esse contraste mostra que nem toda joia de ouro está se comportando da mesma forma. Produtos mais simples e mais sensíveis a preço parecem sofrer mais, enquanto categorias ligadas a ocasiões especiais e valor percebido ainda encontram algum suporte.
Prata e platina foram os destaques positivos do ano
Enquanto ouro e diamantes passaram por um período difícil, prata e platina trouxeram um quadro muito mais favorável.
As exportações de joias de prata cresceram 52,21%, para US$ 1.467,47 milhões em FY26, tornando-se um dos segmentos de melhor desempenho do ano. Esse avanço foi sustentado pela maior demanda global por alternativas mais acessíveis ao ouro.
Esse movimento faz bastante sentido no ambiente atual. Quando o ouro fica caro, os consumidores frequentemente procuram opções com melhor custo-benefício sem abrir mão do apelo estético e simbólico das joias. A prata naturalmente se beneficia dessa migração.
As exportações de joias de platina também tiveram um desempenho forte, com alta de 39,32%, para US$ 254,60 milhões. Isso parece refletir uma preferência crescente em mercados internacionais por categorias mais contemporâneas e premium.
Já as exportações de gemas coloridas ficaram praticamente estáveis, com leve queda de apenas 0,71%, para US$ 437,31 milhões. Em um ano marcado por volatilidade em grandes segmentos, esse tipo de estabilidade chama atenção.
O aumento das importações sugere preparo, não recuo
Um dos elementos mais interessantes dos dados é justamente o avanço das importações apesar da fraqueza das exportações. Em muitos setores, quedas nas vendas externas costumam vir acompanhadas de redução nas importações, à medida que as empresas recuam. Mas não foi isso que aconteceu aqui.
Em vez disso, as importações subiram com força, especialmente em matérias-primas e em algumas categorias específicas.
Segundo Colin Shah, diretor-gerente da Kama Jewelry, isso reflete uma “paisagem global de demanda diversificada”, em que prata e platina continuam ganhando espaço, enquanto ouro e diamantes permanecem pressionados. Ele também afirmou que o avanço das importações indica um “estoque deliberado de matérias-primas” por parte das empresas, diante da expectativa de recuperação da demanda nos próximos meses.
Essa leitura é importante. Ela sugere que o setor não interpreta a fraqueza atual como algo permanente. As empresas parecem estar usando esse período para se posicionar, e não simplesmente para recuar.
Isso não garante recuperação. Mas mostra que muitos participantes ainda esperam condições melhores adiante, o suficiente para justificar a recomposição de estoques agora.
O setor indiano de gemas e joias enfrentou um março bastante difícil, com as exportações caindo 35,23% na comparação anual à medida que a demanda global enfraqueceu e as tensões geopolíticas adicionaram mais pressão. Ainda assim, a forte alta das importações aponta para um setor que não ficou parado. Pelo contrário, muitas empresas parecem estar recompondo estoques e se preparando para uma recuperação quando o ambiente melhorar.
Os dados do ano fiscal mostram um setor pressionado, mas com divisões internas muito claras. Diamantes e ouro continuaram fracos, especialmente em março, enquanto prata e platina entregaram crescimento robusto. Essa diferença reflete uma mudança no perfil da demanda global, em que acessibilidade, composição de categorias e cautela do consumidor estão redesenhando os fluxos de comércio.
Por enquanto, o setor segue preso entre fraqueza de curto prazo e expectativa de melhora mais adiante. Março foi uma aterrissagem dura. Mas o avanço das importações sugere que muitos participantes da indústria já estão apostando que o próximo capítulo pode ser melhor.

