As fraudes envolvendo caixas eletrônicos de criptomoedas (os “crypto ATMs” ou quiosques que convertem dinheiro em cripto) chegaram a US$ 333 milhões nos Estados Unidos em 2025, segundo um relatório da empresa de cibersegurança CertiK. E não foi uma alta tímida: as reclamações registradas pelo FBI somaram mais de 12 mil entre janeiro e novembro de 2025, um avanço de 33% em relação ao ano anterior.
O que está por trás desse crescimento é um “combo” perigoso: quiosques que permitem transações rápidas e com pouca fricção + engenharia social cada vez mais sofisticada + IA generativa, incluindo deepfakes (áudio e vídeo falsos) que tornam a manipulação mais convincente. Na prática, muitas vítimas não têm suas carteiras hackeadas. Elas são levadas a fazer, com as próprias mãos, uma transferência irreversível — e isso muda completamente o jogo da prevenção.
Por que os crypto ATMs viraram a “pista de decolagem” perfeita para golpistas
A CertiK descreve os crypto ATMs como um dos canais de extração de dinheiro mais “eficientes” para criminosos porque eles oferecem:
- Velocidade: conversão de cash para cripto em menos de cinco minutos em muitos casos.
- Pseudonimato relativo: em certos fluxos, a verificação de identidade pode ser mínima (dependendo de regras e limites).
- Irreversibilidade: depois que a cripto sai, trazer de volta costuma ser extremamente difícil.
- Acessibilidade: não exige conhecimento técnico; o golpista “orienta” a vítima passo a passo.
Há ainda um fator estrutural: os EUA concentram cerca de 78% das aproximadamente 45 mil máquinas de criptomoedas do mundo, de acordo com a CertiK. Ou seja: existe uma infraestrutura enorme já pronta, com milhares de pontos físicos espalhados — um prato cheio para redes criminosas que querem escala.
O “buraco” da atribuição: por que rastrear esse tipo de fraude é tão complicado
O relatório também chama atenção para um problema central: um “attribution gap” (lacuna de atribuição). A blockchain registra a transação do operador do quiosque para um endereço de destino, mas não registra:
- quem era a vítima,
- se houve ameaça, chantagem ou coação,
- qual foi o roteiro do golpe,
- se a vítima estava sendo guiada por telefone.
Em outras palavras, a cadeia de blocos mostra operador → endereço, não o contexto humano que levou o dinheiro até ali. Para investigar, normalmente é preciso:
- obter registros do operador (logs, dados, eventuais verificações),
- acionar vias legais e, muitas vezes, ordens judiciais,
- cruzar informações com ligações, mensagens e relatos.
Isso cria um descompasso: o crime acontece em minutos; a apuração, quando ocorre, costuma ser lenta. E essa diferença de velocidade aumenta muito a taxa de sucesso dos golpistas.
Idosos são o principal alvo: 86% das perdas com vítimas acima de 60 anos
Um dos dados mais duros do relatório: cerca de 86% das perdas envolvem vítimas com mais de 60 anos. A CertiK aponta motivos que ajudam a explicar por que esse público é tão visado:
- maior chance de ter reservas financeiras disponíveis;
- menor familiaridade com cripto e tecnologia;
- em alguns casos, isolamento social, o que aumenta a vulnerabilidade;
- maior sensibilidade a “autoridades” (banco, governo, polícia) e ao senso de urgência.
Em golpes de engenharia social, o criminoso não precisa “ensinar cripto”. Ele precisa criar um estado emocional: medo, urgência, culpa e obediência.
Mas vítimas mais jovens também aparecem — via golpes de “romance” e “investimento”
A CertiK observa que pessoas mais jovens estão aparecendo com mais frequência em golpes de romance/investimento, muitas vezes no formato conhecido como “pig butchering” (o “golpe do abate do porco”). A dinâmica: construir confiança ao longo do tempo, convencer a vítima a “investir”, e só então pressionar por transferências maiores.
Nesse cenário, o crypto ATM vira uma ferramenta prática: “vai lá, deposita, compra cripto e manda”. Sem depender de transferências bancárias internacionais ou mecanismos que levantem suspeitas imediatas.
As 5 táticas mais comuns citadas pela CertiK
O relatório organiza as fraudes em crypto ATMs em cinco táticas principais. Todas têm um objetivo em comum: fazer a vítima acreditar que pagar rápido é a decisão “correta”.
- Impersonificação de governo/autoridade
“Você tem uma dívida, multa, processo, mandato, investigação.” O golpe usa medo e urgência para impedir checagens. - Golpe de suporte técnico
“Seu computador foi invadido, sua conta está comprometida, sua segurança está em risco.” A vítima é guiada para “resolver” no quiosque. - Golpe do “parente em apuros” (tipo “vovô/vovó”)
“Seu familiar foi preso/está no hospital/precisa de ajuda urgente.” A emoção domina a decisão. - Romance e investimento (“pig butchering”)
Relacionamento + confiança + promessa de retorno + pressão para depósitos. - Golpe de “recuperação de fundos” (recovery scam)
Depois de um golpe, aparece um “especialista” dizendo que recupera o dinheiro — cobrando uma taxa antecipada.
O que diferencia esse tipo de fraude de ataques como phishing ou carteiras drenadas por contratos maliciosos é que aqui não há invasão técnica. A vítima faz tudo “corretamente” do ponto de vista do sistema — só que sob manipulação.
IA mudou o patamar: deepfakes e scripts hiperpersonalizados
A CertiK afirma que golpes de engenharia social “turbinados” por IA foram 4,5 vezes mais lucrativos do que métodos tradicionais em 2025. Isso acontece porque a IA melhora a credibilidade e a eficiência do golpe.
1) Deepfakes “em tempo real”
O relatório descreve a integração de deepfakes (áudio/vídeo) como uma escalada relevante no curto prazo. Quando a vítima ouve ou vê algo que parece real, a barreira de desconfiança cai.
2) Personalização automática
A CertiK também aponta ferramentas que coletam dados públicos (redes sociais, hábitos, contatos) para criar scripts que imitam:
- linguagem e tom da vítima,
- padrões de comunicação,
- referências pessoais,
- até o “jeito” de falar de alguém conhecido.
Ou seja: o golpe deixa de parecer genérico e passa a parecer “feito sob medida”.
3) Industrialização: redes criminosas com “divisão de trabalho”
Outro ponto crítico: o perfil do golpista está mudando. A CertiK observa uma migração de atores isolados para organizações transnacionais estruturadas, operando com divisão de funções quase corporativa:
- prospecção e “qualificação” da vítima;
- scripts e treinamento;
- gestão de carteiras de recebimento;
- conversão e lavagem;
- até “suporte” pós-golpe.
Esse modelo explica a escala: mais eficiência, mais volume, mais dificuldade de combate.
Por que o ATM funciona tão bem: pouca fricção + pressão emocional
O relatório resume a ideia central: os crypto ATMs têm baixa fricção. E fraude adora baixa fricção.
O criminoso só precisa fazer a vítima seguir um roteiro simples:
- sacar ou levar dinheiro;
- depositar no quiosque;
- escanear um QR code;
- confirmar;
- ir embora.
Cada etapa parece “normal”. E isso é o que torna tudo tão perigoso: a vítima sente que está no controle, mas está apenas executando um script desenhado para transferir valor rapidamente e sem retorno.
Resposta regulatória: proteger sem travar usos legítimos
O relatório menciona debates e propostas nos EUA. O desafio é delicado: proteger usuários sem empurrar a atividade para canais ainda mais opacos.
- A senadora Cynthia Lummis citou que legislações sobre estrutura do mercado cripto podem ajudar a punir maus atores sem sufocar inovação.
- O senador Dick Durbin apresentou em fevereiro de 2025 o Crypto ATM Fraud Prevention Act, buscando criar salvaguardas para usuários de quiosques.
Na prática, o equilíbrio envolve medidas que:
- aumentem alertas e barreiras contra urgência artificial;
- melhorem detecção de padrões suspeitos;
- facilitem cooperação entre operadores e autoridades;
- sem bloquear transferências legítimas de remessas e inclusão financeira.
O que essa tendência diz sobre o mercado cripto em 2026
O ponto mais importante além dos números é o que essa explosão de fraudes revela: a cripto virou mainstream o suficiente para atrair criminalidade mais organizada, profissional e “equipada” com IA. É o lado feio da adoção — e, ao mesmo tempo, um sinal de maturidade exigida: segurança do usuário, prevenção, fricção inteligente e respostas rápidas.
Em 2025, a IA tornou golpes mais convincentes. E os crypto ATMs ofereceram um caminho físico e rápido para transformar pressão psicológica em transferência irreversível. Esse casamento explica por que as perdas e as queixas dispararam.
E enquanto o ecossistema continuar oferecendo baixa fricção, deepfakes cada vez mais acessíveis e redes criminosas com operação em escala, fraudes via quiosques devem seguir como uma das categorias de crime financeiro que mais cresce — e uma das mais difíceis de conter — no cenário americano.

